Jaguaribe - canto de sangue & pedra


para Helania Gonçalves,
para Raimunda, in memoriam.
para o poeta Francisco Carvalho, in memoriam.


Os mortos passam lentamente

pela rua principal

do fundo da torre negra

o sino os acompanha

com lágrimas de metal.

Francisco Carvalho



Não há morte no leito deste rio,
embora seja ele o rio da morte.
Não há mais onças nas margens deste rio,
embora seja esse o rio das onças.

O sol reflete com fúria sobre o sangue e as pedras deste rio
                                               sobre a morte e as onças que flutuam em suas águas.
O sol reflete sobre as pedras encravadas nas várzeas deste rio
                                               sobre o uivo insano que ecoa para além das suas barreiras.

Há veneno neste rio onde a séculos chove agrotóxicos,
embora seja ele a memória da desaparição de todos os venenos da terra.
Há veneno neste rio onde a séculos se oculta a memória dos tapuias,
embora seja ele a tapuia memória que resiste à violenta vastidão dos séculos.

O sol reflete sobre a fúria de Tempo
                           sobre as tendas dos ciganos estendidas à sombra das oiticicas
                           sobre os castelos de Espanha e os touros pirotécnicos
                           sobre os aboios dos vaqueiros rasgando o vale em busca de sal
                           sobre a noite imensa e fecunda vestida de piçarra e cera
                           sobre o brilho profano cintilando nos olhos das cabras
                           sobre os terreiros dos tabuleiros evocando divindades esquecidas
                           sobre o cadáver reluzente de uma piranha abandonada

O sol reflete sobre si mesmo ao se deparar com o paredão de pedra da chapada
                                          com as éguas emplumadas e calcáreas
                                          com as ervas que proliferam nos barreiros e açudes
                                          com os mortos que vivem no lodo da Caiçara
                                          com os azulejos azuis do campo-santo em ruínas
                                          com o canto azul de sangue e pedras que não se desintegram

A lua parda sobre acinzentada história se anuncia
como uma hóstia ensanguentada na famélica boca de uma beata negra
ou como o rugido de uma fera que assombra
todas as vilas surgidas onde antes reinava o mar de palmeiras e a aurora de cristal

Todos os medos imaginários tornam à pele
como furúnculos que insistem em recordar
a inflamação arcaica de onde nascemos
e o destino que pulsa como horizonte em nossas córneas

Durante anos garimpei sonhos e pesadelos
sem distinção ou juízos de valor
que me permitissem apartar, como os vaqueiros
em dois rebanhos, os segundos dos primeiros

A estrela do amanhecer brilha sobre a igreja do Rosário
Iluminando o esterco que carrego na mochila
e a vaga esperança de com minha torpe e rarefeita filologia
traduzir em vernácula língua a bela e sombria história de um rio inexistente

Não há mais rio neste rio incandescente,
embora as fogueiras em suas margens sigam queimando feridas e unguentos.
O aroma de café mistura-se ao coalho que fermenta o leite
e atravessa o vale sobre os ombros de um cavaleiro que insiste em domar o Vento.

As náuseas e os delírios de Aracati seguem correndo contra o Atlântico,
em direção à freguesia do Icó,
onde sob o templo da Virgem da Conceição do Monte,
repousa a cabeça de um touro enforcado pela crueldade humana.

Sobre a mesa de madeira jogo búzios e cartas de tarot
e saboreio com a língua, a boca e os dentes
a maciez da polpa que semelhante às frutas adocicadas
escapa das marinhas conchas e do papel onde jaz impressa a figura do enforcado

Neste canto de sangue e pedra que me escapa,
vivem as onças e os sertões que nos habitam.
O sol e a lua suas memórias trazem bem guardadas,
E a estrela matutina as ressuscita e atualiza em carne viva:
os ossos, a gramática, a prosódia e a sintaxe nas quais emana sua telúrica lírica.

nuno g.
Lima, 26 de agosto de 2025. (11:25 / AM: antes do meio-dia)

									   

Nuno Gonçalves