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"Os Pássaros", de Alex Hermes, fotógrafo autônomo










Ana Miranda nasceu em Fortaleza, Ceará, em 1951. Artista plástica (são de sua autoria todas as ilustrações desta matéria) — realizou exposições no Brasil e no exterior; escritora — publicou inúmeros livros, elencados apenas parcialmente a seguir. Os primeiros e talvez menos conhecidos (imerecidamente) foram os volumes de poemas Anjos e demônios, de 1979 e Celebrações do outro, de 1983. Seu romance inicial, Boca do Inferno (1989), ganhador do prêmio Jabuti de Revelação, está incluído na lista dos cem maiores do século XX, em língua portuguesa, publicada no jornal O Globo, em 1998. A obra toma como personagens centrais as figuras diversas, mas igualmente contundentes do Padre Antonio Vieira e Gregório de Matos Guerra. Seguiram-se O Retrato do rei(1991), Sempecado(1993) e A Última quimera (1995, prêmio de bolsa da Biblioteca Nacional), centrado na figura de Augusto dos Anjos. Em 1996 é a vez de Desmundo, adaptado para o cinema por Alain Fresnot. Como pesquisadora, publicou em 1998 a coletânea de poemas de amor conventual, Que seja em segredo; em 2000, uma antologia intitulada Caderno de sonhos, escrita pela autora aos vinte e um anos. Em 2002 o romance Dias & Dias (prêmio Jabuti na categoria Romance, e prêmio da Academia Brasileira de Letras pela mesma categoria). Flor do cerrado: Brasília, pela Companhia das Letrinhas, seu primeiro livro infanto-juvenil, data de 2004, ano de retorno à poesia com Prece a uma aldeia perdida. Colabora desde 1998 com a revista Caros Amigos, desde agosto de 2004 com o Correio Braziliense, e desde abril deste ano com o jornal O Povo. Ana Miranda enviou-nos, atenciosamente, as respostas ao Quiztionário via correio eletrônico. Chamamos a atenção para o caráter aparentemente prosaico de suas respostas, mas que em seu caso equivale a dizer: EMINENTEMENTE POÉTICO...





1. Um livro?

Todos os livros do mundo. Todos os bons livros do mundo. Dizia o Emerson que todos os livros do mundo foram escritos pelo mesmo ser onisciente. Na obrigatoriedade de escolher apenas um, seria o GrandeSertão: Veredas. Tem sido o meu livro mais próximo, mais salvador. Ele me chama quase todos os dias, e tenho de abrir suas páginas, ler uma passagem...




2. Um(a) autor(a)?

Shakespeare, que é o autor da humanidade. Não seríamos os seres humanos que somos, sem ele. Shakespeare organizou nossa alma e nossos sentimentos, desvelou nossas aptidões, anotou nossos mistérios, transformou-nos nesses seres vis e redimidos que somos...

3. Um trecho?

Anoto todos os anos na primeira página de minha agenda: "Pois escrever significa abrir-se em demasia. Por isso, não há nunca suficiente solidão ao redor de quem escreve, jamais o silêncio em torno de quem escreve será excessivo, e a própria noite não tem bastante duração. Sendo assim, não pode mais haver a nosso dispor o tempo adequado, visto que são extensas as distâncias e facilmente nos desviamos". Kafka. Ou, em suma: A arte é longa e a vida é breve.

4. Uma máxima política?

Estou sempre do lado do mais fraco, mesmo que ele esteja errado.

5.Uma palavra?

Desmundo. É a única palavra que inventei, a única palavra que é de minha autoria.

6. Uma admiração?



Por quem sabe cozinhar... Por quem sabe voar... Por quem sabe educar crianças... Pelos jardineiros... Pelos pescadores nas jangadas... Pelas árvores... Pelos artistas... Pelos escritores...

 7. Uma aversão?

Nem escrevo o nome, quando sinto aversão. Escrever o nome é interiorizar, e aquilo passa a existir dentro de mim e a ser parte de mim. Aversão é aversão.

 8. Uma lembrança?

As férias dos meus netos, aqui na minha casa. Uma criançada, parecia uma colônia. Fomos tão felizes... Uma gratidão: Minha babá, Odete... Dona Irene, que cuidou de mim, e depois, de meu filho...



9. Um desejo?

Que acabe a miséria no mundo. Que acabe a fome, a injustiça. Que os seres humanos aprendam a cuidar da Terra. Que meus livros sejam cada vez melhores... Coisas assim...

10. Um projeto?

Tenho muitos romances a escrever. Precisaria viver muito, muitíssimo...


   

INSCRIÇÃO

 

Disse:
tenho o meu coração guardado num cofre —
tenho o meu coração guardado numa jaula de leão —
tenho o meu coração enterrado num túmulo sem flores
e com uma inscrição:












“Inscrição” é o poema da página 60 de Celebrações do Outro, segundo livro de poesias de Ana Miranda.













































A noite cantava escarlate mas sem alarde.
A chuva banhava com arte o que restou da tarde.
O dia queria ser quem arde na manhã que invade.

Eu encontrava contigo nos poemas que lia.
Eu te ouvia no violão que eu não conhecia.

A noite guardava segredos de mágicas vias
por onde desfilava a vida que eu celebrava.

A noite acolhia a semente do dia que tu segredavas.

(Com música de Alex Costa e Jord Guedes)






Cabe um poema a cada instante,
a ponta da pena se faz tinta,
em versos que aproximam o distante,
se abrange a vida que não finda.

Cada letra tem seus caprichos,
uma a uma pousam no papel,
de arraias e arreios andarilhos,
serenando aquarelas num dossel...

Alheias senhoras dos sentidos,
em ciranda, tecendo mandalas,
são asas e ventos, ventre e umbigo
sempre ficando e arrumando as malas.

(Poema publicado originalmente emVERMELHO, de Henrique Beltrão, e recriado em parceria com o poeta Alan Mendonça)





Le voyageur et le voyage
composent un seul paysage.
Le voyageur est son voyage.

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O viajante e a viagem
compõem uma só paisagem.
O viajante é sua viagem.





I
O VESTIDO-MAR

Bom Rei Meu Pai me quis para núpcias
Porque sou bela e sósia da Morta.
Em vão razão à paixão exorta,
Ele diz qu’há de ter a pelúcia.

Aconselhada por Aia, astúcia
Emprego a fim de detê-lo à porta:
Capinar-me-á livremente a horta
Se me doado em cada minúcia

Vestido-Mar, azul de marugem.
Penso impossível cumpra mas surgem
À minha frente as vagas, escumas

Maravilhantes da veste em brumas,
Índiga, seda e babados, plumas.
Bom Pai Meu Rei me exige a penugem.






II
O VESTIDO-LUA

Meu Bom Rei Pai bufa, treme, sua,
Sanha fazer-me esposa, Rainha.
Por sugestão da Fada Madrinha
Prominto breve inteira ser Sua.

Cederei, caso um Vestido-Lua
Me seja entregue até manhãzinha.
Feito nos contos da Carochinha
O fato, ali, lunando, flutua.

Leve tecido, argênteo cetim,
 Exato corte, meu manequim.
 Reflete o brilho dos paetês

 O olhar paterno imerso em lamês
 (Dá medo ver como ele me vê):
 Meu Rei Bom Pai não tresolhe assim.



III
O VESTIDO-SOL

Mau Rei Meu Pai quase me domina,
Por triz escapo à real loucura.
Tamanho o ardor com que me procura,
Será, pegar-me, carnificina.

Porém clemente Madre me ensina
Estrataclara contra a diabrura.
Dou-me, se vem cobrir-me a brancura
Vestido-Sol de luz sulfurina.

Nem bem formulo o pedido, ai, ei-lo,
 Plissês perfeitos, traje modelo.
 Flamê, arrasta-se a cauda e sei

 O que, dourada, evoca: o Astro-Rei!
 E os raios sob os quais queimarei...
 Mau Pai Meu Rei, Sátiro Amarelo.



IV
A PELE-DE-ASNO

Mau Rei Mau Pai de luxúria insã
A violar meu casto sossego.
Quando me avista fica já cego
De tão querer bruto, fauno afã.

Adeus Castelo, adeus todo Clã,
Vou correr léguas do Ogro, Morcego.
Sob este couro de burro, arrego
Encontro, oculta no cardigã.

Vou virar pobre, sem roupa, ceia,
 Vou ser a louca-escárnio d’aldeia:
 Beleza soube engendrar Horror?

 Há de Beleza vir do Pavor.
 Na Pele d’Asno o meu pundonor...
 Mau Pai Mau Rei, amar-me-ás, feia?!