QUEIXA DO EDITOR DE POESIA

“Poesia não se vende,
ninguém a entende!”
— suspira o editor.
Poesia! Poesia!
Ninguém te entende.
És como a morte e o amor.

(Lêdo Ivo)

Comemora-se neste março de 2009 o Dia Nacional da Poesia. Comemora-se? Bem, não são muitas as razões para tal, a julgar pela atualidade do poema de Lêdo Ivo. “Poesia não se vende”. Seria esse um problema menos grave, se realmente se tratasse apenas de ojeriza à poesia como gênero. Mas num país e, mais, num planeta em que gradualmente o Verbo cede lugar à Verba — não consiste tamanho repúdio somente em um problema de predileção  literária:  pouco  se entende  a  Poesia  porque  pouco se encontra o (tão mercadológico) espírito hodierno aberto à Poética e suas manifestações! Por isso, invertendo a ordem das coisas, subvertendo em orgulho o lamento, ao invés de fazermos da invendabilidade dos versos uma razão de lástima, preferimos proclamar em alto e bom som: “Glória a Ti, Poesia, que ainda não Te vendeste!” Eis também por que esta FOLHA VOLANTE insiste em existir, poeticamente existir, e em ser distribuída gratuitamente: ESTAMOS À DISPOSIÇÃO, MAS NÃO ESTAMOS À VENDA!





Uma flor para se ver
Uma flor para se ter     
Uma flor para se comer      

                            Manoel Carlos






Nilto Maciel é um escritor univercearense. Vive recolhido por vontade própria, depois de muito tempo dedicado à literatura. Autor de variados títulos, dentre os quais se ressaltam os recentes A Leste da Morte (contos, 2006), Carnavalha (romance, 2007) e, como organizador e crítico, Contistas do Ceará — D’A Quinzena ao Caos Portátil (2008).






Após uma macarronada (de bacalhau) regada a vinho (argentino), o escritor Nilto Maciel concede aos seus sequestradores Mario Sawatani (o anfitrião) e Poeta de Meia-Tigela (o filão) irreal entrevista, reproduzida (em parte) a seguir.





Os anos de aprendizagem de Nilto Maciel

O Poeta de Meia-Tigela. Nilto Maciel, desde quando a sua vida se define como literatura?

Nilto Maciel. Desde menino, talvez por timidez ou miopia, comecei a ler tudo, preocupado com as aulas dos dias seguintes. Temia ser repreendido pela professora, por não saber de nada, porque eu não conseguia ler o que ela escrevia no quadro, entendeu? Com vergonha de dizer que não via direito, eu lia com antecedência todos os livros de todas as matérias. Quando chegasse o dia da leitura, do ditado, da cópia, do exercício, eu me sentia preparado. Então fui me viciando em ler; lia todos os livros didáticos de geografia, português, história, aritmética. Eu lia tudo com a maior curiosidade, sem nunca perguntar nada a ninguém. Sempre tive vergonha de perguntar. Em razão disso, aprendia por vias tortas, principalmente na pronúncia. Como eu não ouvia a professora pronunciar certas palavras, por dedução eu lia: “turco é quem nasce na Túrquia”. Para mim era Túrquia, por causa do turco. Quando alguém me falou mais tarde: “Ah, na Turquia...”, eu fiquei em dúvida. Depois passei a ler os livros de cãs, de meus irmãos mais velhos. De ginásio, científico e faculdade. Lembro-me de um manual de psicologia. Li-o, estudei-o todo. Com doze anos de idade lia aquilo por curiosidade, sem nenhum objetivo.

O Poeta de Meia-Tigela. Era só o anseio. Um anseio que você nem sabia ainda o que significava.

Nilto Maciel. Exato. A mandado de mamãe, eu ia à mercearia de meu pai buscar alguma mercadoria.

Enquanto ele preparava a encomenda, eu me punha a catar jornais num canto. Ele se aborrecia: não levasse jornais. Não deixava, porque os jornais velhos serviam para embrulhar sabão. Mas, às escondidas, eu pegava os suplementos literários. Cada jornal de Fortaleza mantinha um suplemento literário dominical. Nesse tempo tomei conhe-cimento de Eduardo Campos, Moreira Campos e outros. Para mim, sumidades intocáveis. Pois publicavam contos, poemas, crônicas em jornal. O gosto pela leitura tomava conta de mim. Mas não pensava ainda em escrever. Só mais tarde, aí pelos 15 anos, passei a escrever, por causa de meus irmãos mais velhos, que se diziam poetas e faziam versos. Eu queria ser como eles, não como Castro Alves ou José de Alencar. Queria ser como meus irmãos, cinco, dez, quinze anos mais velhos do que eu. Diziam-se poetas porque sabiam Bilac de cor e recitavam nas praças ou em qualquer lugar. O primeiro livro, escrito entre os dezoito e os vinte e poucos anos, Itinerário (será republicado junto a outros dois, num só volume), eu escrevi sem conhecer muita literatura.

§ Realidade e ficção

Nilto Maciel. Escrevi umas histórias, que depois fui ver não eram bem contos. Também não eram crônicas. Pareciam ensaios. Mas eram ficção. Eu tinha certeza de que estava fazendo ficção. São histórias criadas a partir da própria literatura.  Aliás, tudo o que escrevi até hoje, ou quase tudo, se deu em função de minhas leituras. Até dos livros didáticos, das lições de História, Geografia, etc. Pouco do que vivi, porque eu pouco vivi (não estou falando em anos, estou falando em intensidade). Toda vez que escrevo (não sei se é assim com a maioria) baseado na memória, na experiência, no vivido, crio literatura sem valor. Prefiro a imaginação. Até a cidade de Palma, nome criado para designar a cidade onde nasci, até Palma é imaginária. Nem a cidade em que nasci eu conhecia, nem conheço, quase. Estou falando de ruas, ruelas, becos, nunca andei por elas. Tudo eu recriei. Imaginei. As pessoas reais da cidade eu não conheci. Via de longe, não as ouvia falar, porque criança não tinha o direito de ouvir conversa de adulto. Talvez nunca tenha existido gente como as de Palma. E eu só sei escrever assim; o que seja irreal. Não me interesso por realidade. Por exemplo, a história do homem que trabalha na sua casa [de M. S]: você disse que ele é quase analfabeto, e vive de cuidar de jardim, mas lê livros sobre orquídeas; isso aí me deu um insight para criar um personagem. Não sei se vai sair ou não; porque é raro, quase irreal isso
aí, um jardineiro que lê. Isso me fascina.

O Poeta de Meia-Tigela. É o elemento irreal dentro da realidade.

Nilto Maciel. Eu liguei a televisão um dia desses. O locutor anunciava: “esta tarde no centro da cidade, um senhor foi assaltado, levou três tiros” e tal. Surgiu-me um personagem. Em casa, ligou a televisão e viu sua própria figura morta no centro da cidade às quatro horas da tarde. E a filha telefona: “Pai, o senhor está bem?” “Estou”. “Mas o senhor não foi morto hoje à tarde? Saiu na televisão ainda agora”. É irreal, não é? O fato é real em parte. Então eu parto do real para o irreal. E só gosto assim. É preciso ter invenção.

Mario Sawatani (responsável pelo som, grita): Rapaz, o disco de Pixinguinha que eu comprei veio trocado, mas a primeira música é Delicado, aí eu tenho que botar pra tocar aqui. [tocando Delicado; goles e conversas dispersas]

§ A Margem — Glauco Mattoso

Mario Sawatani (retomando — a conversa e o vinho). Nilto, como foi a tua incursão com o Glauco Mattoso, a propósito da produção marginal dos anos 70?

Nilto Maciel. O Glauco Mattoso já compunha versos satíricos e, como muitos poetas, editava um jornalzinho feito em mimeógrafo e distribuía por aí. Eu também edivava um fanzine, o Intercâmbio. O termo usado para esse tipo de produção era marginal, independente. Na verdade, no mercado quem é marginal é quem não publica, está fora do mercado. E é a maioria. Então surgiu a ideia de publicar uma Antologia de contos marginais.  “Vamos reunir quem nunca tenha publicado nada em livro, só em jornaizinhos ou revistas, e selecionamos o que a gente achar de melhor”. Coletamos setenta ou mais autores. Aí veio a questão da editora. “Não vamos ter editora, porque somos marginais”. Publicamos um livro com a capa em preto-e-branco, um assaltante-mirim com revólver na mão, publicado na revista O Saco, meses antes. 

Mario Sawatani. Queda de braço.

Nilto Maciel. Na verdade, uma “queda de braço” com os outros. O Glauco Mattoso sugeriu esse título  e  financiou. Publicamos o livro, todos os jornais grandes falaram, o livro ficou famoso e ele [G.M] foi crescendo também, embora marginal. Foi assim que nos conhecemos. E continuamos nos correspondendo.





[conversas dispersas: “acabei teu cigarro”; “Ernesto Nazaré morreu louco”; “roubei as baquetas do Maracatu sem querer, mas vou devolver amanhã”]

Carnavalha e metaliteratura

Nilto Maciel. Voltando para a literatura. Depois de certo tempo, pensei em não escrever como os outros.  Não deveria imitar ninguém. Queria escrever algo que não fosse poema nem conto nem romance. Outra coisa. Aí passei ao que são as minhas estórias. Que não são poemas nem são contos nem romances. Também não são crônicas. São textos filosóficos e psicológicos. Mas não são ensaios.

Mario Sawatani. Uma perguntinha infame. Quem te chamou mais a atenção na literatura cearense do século XIX pra cá?

Nilto Maciel. Moreira Campos. E Francisco Carvalho, na poesia. Mas avaliar escritor novo é mais difícil. Analisar um Graciliano Ramos, consagrado pela Academia, pela crítica, é mais fácil. Então eu não gosto muito de falar de gente nova, não.

[Geraldo Vandré alto, na vitrola]

Mario Sawatani. A gente está no carnaval. O que é que o carnaval significa pra você?

O Poeta de Meia-Tigela. Carnavalha é o quê?

Nilto Maciel. Eu tinha vindo de férias de Brasília pra cá com minha família; minhas filhas me pediram para passar o carnaval em Jericoacoara. E eu disse, “não quero. Vocês vão pra Jericoacoara, eu vou pra Baturité. Vou descansar. Ficar só”. Ao chegar lá, dei de cara com o maior carnaval do mundo. Sentei-me numa mesa de bar e me pus a olhar para as colombinas, os doidos, o diabo-a-quatro. Eu não imaginava encontrar Baturité/Palma em carnaval. Nascia um romance daquele momento. Um romance de hoje, porque meus romances são todos antigos, do meio do século XX (embora eu não date, penso no povo daquele tempo, que eu não conheci, inventado). Surgiu Carnavalha, uma estória passada em três dias.

Mario Sawatani. Sim, a estória se passa em três dias. Mas eu sei que o romance demorou mais de dez anos pra ser escrito. Por quê?

Nilto Maciel. Cada capítulo que eu ia escrever, ao surgir uma ideia, eu pesquisava muito; lia os contos de fada, os ditados populares, o escrivão Pero Vaz de Caminha, sua carta; é uma literatura metanarrativa. Toda a minha literatura é feita a partir de livros, é uma metaliteratura.

[Nilto Maciel aproveita um descuido dos seus perseguidores e foge — fantasticamente —
do cativeiro]





I — APARIÇÃO

Quem como Deus? Miguel Arcanjo, São
E Forte, Capitão das Santas Hostes,
Condutor do Celígeno Estandarte,
Primeiro no Mavorte contra o Cão,

Protetor Fiel frente à provação,
Anteparo Imortal, Guincho, Guindaste
Das almas, Baluarte a fincar haste
No seio do Dragão, no Coração.

Quem? AntiBeliel, Belo Miguel,
Sequestrador do corpo de Moisés,
Intercessor amigo do profeta

Daniel, da Balança sem labéu
Portador, entidade nota 10,
Nume de devoção deste poeta!



III — CONSAGRAÇÃO

Ele, Aquele que não dorme no ponto,
Ele, o que não nos deixa levar cano,
O que impede caiamos nos enganos
Do luxo, da luxúria e noutros contos

Do vigário; o Maior desde o Helesponto
A Trapizomba, o Arcano Soberano,
O que empós consagrar Monte Gargano
Fora também sagrado por Siponto.

Em Seu louvor rendemos gratia plena,
Celebramos em Seu penhor Solene
Missa, alegres e uníssonos hosanas

Cantamos, festejando em caravanas
Àquele de fulgor vasto e perene,

  Ele, o Velador, Vela, Mastro e Antena!


      

POEMA PARA UM GATO



      Teus olhos de cobre –
      Dois riscos de pupila –
      Se fixam nos meus,
      Tão menores.

   Miram o mundo em transições
      De luz e fundura, no ócio
      Dos que têm a vida ganha
       Em corpo de pluma.

      Sob um focinho róseo, a boca
      Se desenha em linhas oblíquas,
      Num bocejo de serpente.

      As orelhas se torcem ao menor ruído,
      Baixam-se para o ataque
      E relaxam em triângulos
      No tempo longo de descanso.

      As patas, com a suave textura
      De borracha, e as unhas
      Violentas de ranhuras, escondem
      A dupla face de um caráter
      Tranquilo mas astuto.

      O silêncio da tua presença
      E teu andar impressentido,
      No aspecto de escultura,
      Concentram a beleza da poesia
      Em felina ternura.

      Tércia Montenegro






































































































































































































































II — VITÓRIA

Anjo Rebelde quis virar o Tal,
Dos domínios do Céu tirar a Paz;
Só não cuidou ter Deus na manga um Ás,
Letal Guerreiro quão Angelical:

Tu — Cruel porque Bom, Vingador qual
Outro nenhum conheço mais capaz
De despenhar abaixo Satanás
E os demais que não têm na fronte o tau.

De novo vencerás, caso o Anticristo
Ouse voltar ao mundo com seu Cisto,
Empestando-o num átimo, num lapso.

Quando tudo for pútrida Metástase
Tu virás instaurar a Apocatástase,
Tu — Príncipe Fatal do Após-Colapso!






IV — MEMÓRIA

Em Miguel o cultivo de Honrarias
Devidas aos Espíritos Celúrios
Que em sonhos nos assopram Bons Augúrios
E afugentam terrenas vilanias.

Mais que Guardas a postos, nossos Guias,
Tão prontos a livrar-nos dos espúrios
Tentares do Malino e seus murmúrios,
São Serviçais às ordens do Messias.

— Anjos-Irmãos, Arcângelos do Peito,
Sagrados Principados, Potestades
Majestosas, Virtudes-Luz de mim;

Dominações Bondosas, Sempre-Eleitos
Tronos e oh! Querubins: por C(l)aridade,
Fazei de nós, saguins, Grãs-Serafins!







O d3US
Eclode na fedentina o ovo divino
A larva sagrada surge na latrina
Esgotos abertos tocam os sinos
A imunda luz que do ser ilumina



O iNSETO
Putrificada existência de um casulo aberto
Morbidez decorrente de um novo inseto
Metálico mosquito elétrico bestial
Surgido de um pútrido mundo celestial




CoNsUmAçÃo
Um d3US faminto, alimento: arcanjos
Sobremesa lasciva, caldo de espíritos
Pequeno inseto, banquete de anjos

Doces cloacas, pútridos fluidos





E o prateado mosquito suga a eminência
Um líquido viscoso emana em jatos
Alimento celeste para um verme alado
Moribundo senhor, corpúsculo em dormência



Chupando o divino com volúpia extrema
Sugando as vísceras podres universais
O inseto: a entidade suprema
Dorme o d3US em flores celestiais



Mórbida/estranha guerra santa
De um d3US e um inseto caídos
Dúbios corpos galácticos sofridos
Fluidos etéreos fluem das entranhas
Evaporam-se seres pelo vento atômico
Sepultados eternos, cemitério iônico
















































































Micropoemas de Tito de Andréa