volante

Tutorial

Não é que conseguimos retornar? Com a tiragem reduzida à metade, bem verdade, mas em compensação com o número de páginas duplicado! E, se tamanho não é documento noutros casos, neste a coisa mostra-se diferente: porque a duplicação da Volante implica a também apresentação de textos — bons textos — em dobro. Poemas de Carlos Roberto VaZconcelos, Francisco da Silva (vulgo Chico Bento), Frederico Régis, Raimundo Nonato e Uirá dos Reis; contos de Ary Salgueiro e Cellina Muniz; trecho de romance inédito de Denis Moura, e a inauguração do “Quiztionário”, nesta edição com Oswald Barroso. Carlos Roberto VaZconcelos (ele, novamente) evoca na seção “Procura-se” a figura “brigante” de Adolfo Caminha, e o Poeta de Meia-Tigela encerra (para alívio de todos) o seu Apocalipsiará. Voemos, então, que a resposta (ainda) está soprando no vento.




o tempo
é um templo sagrado
o tempo
é um templo vazio
o tempo
é um templo

Deus é contemporâneo
do tempo

a eternidade é contemporânea
do tempo

a solidão é contemporânea
do tempo

viver é contemplar
o tempo

pensar é contemplar
o tempo

morrer é contemplar
o tempo

o tempo não tem tempo




o tempo e a memória
tomam caminhos opostos

o tempo não olha para trás
a memória cata as migalhas

o tempo compõe mistérios
a memória retém segredos

o tempo é insensível
a memória é sentimental

o tempo não tem idade
a memória sente saudade

o tempo desata os braços
a memória reata os laços
o tempo é um rio nato
a memória nada contra o regato

o tempo não se demora
a memória pergunta as horas

o tempo e a memória
tomam caminhos opostos



 
 
 
 
 
 
 
 
           

1. Um livro?

           Grande e Estranho é o Mundo, de Ciro Alegria, publicado pela primeira vez em 1941, no Peru. Um dos livros de preferência de minha mãe Alba Cavalcante Barroso, uma inveterada leitora, que me transmitiu o gosto pela leitura de romances. O título já diz bem desse grande e estranho livro, de autoria de um dos maiores escritores de língua hispânica, peruano de nascimento e discípulo de César Vallejo. O livro descreve magistralmente a luta de uma comunidade indígena do Peru, a terra natal de Ciro Alegria, em defesa de sua terra, contra latifundiários, exército e governo a serviço dos Estados Unidos. Foi como um precursor do chamado realismo fantástico latino-americano.
Recorto, para os leitores, uma pequena passagem do livro: “Os que mandam, justificam-se dizendo: ‘Vão para outra parte, que o mundo é grande’. Certo, é grande. Mas eu (...) conheço o mundo grande onde nós, os pobres, costumamos viver. E eu lhes digo com toda a sinceridade que pra nós, os pobres, o mundo é grande, porém estranho. (...) Alguns sonham e acreditam que o que não viram é melhor. E se vão pra longe, procurando outra vida. Quem voltou? (...) E eu lhes digo que podemos chorá-los como mortos ou escravos. (...) Nesse mundo grande, mudamos de lugar, vamos de um lado pra outro buscando a vida. Mas o mundo é indiferente e nada nos dá, nem sequer um bom salário, e o homem morre com a testa grudada numa terra amarga de lágrimas”.
            É significativo o modo como o livro (não) termina: “Mais perto, cada vez mais perto, o estampido das metralhadoras continua soando.” O título original do livro em espanhol é El Mundo es Ancho y Ajeno, e bem poderia ser traduzido como O Mundo é Hostil e Distante, hoje mais ainda.

2. Um (a) autor (a)?

           Miguel de Cervantes (de Dom Quixote) e Calderon de la Barca (dramaturgo e autor de A Vida é Sonho), representando os escritores do renascimento espanhol, talvez o mais notável período da história da cultura ocidental.

3. Um trecho?

           De Vidas Secas, Graciliano Ramos. Trecho do capítulo sobre a morte da cachorra Baleia.


        “Abriu os olhos a custo. Agora havia uma grande escuridão, com certeza o Sol desaparecera.
         Os chocalhos das cabras tilintaram para os lados do rio, o fartum do chiqueiro espalhou-se pela vizinhança. Baleia assustou-se. Que faziam aqueles animais soltos de noite? A obrigação dela era levantar-se, conduzi-los ao bebedouro. Franziu as ventas, procurando distinguir os meninos. Estranhou a ausência deles.
         Não se lembrava de Fabiano. Tinha havido um desastre, mas Baleia não atribuía a esse desastre a impotência em que se achava nem percebia que estava livre de responsabilidades. Uma angústia apertou-lhe o pequeno coração. Precisava vigiar as cabras: àquela hora cheiros de suçuarana deviam andar pelas ribanceiras, rondar as moitas afastadas. (...)
            Baleia respirava depressa, a boca aberta, os queixos desgovernados, a língua pendente e insensível. Não sabia o que tinha sucedido. O estrondo, a pancada que recebera no quarto e a viagem difícil do barreiro ao fim do pátio desvaneciam-se no seu espírito.
         (...)
         A tremura subia, deixava a barriga e chegava ao peito de Baleia. Do peito para trás era tudo insensibilidade e esquecimento. Mas o resto do corpo se arrepiava, espinhos de mandacaru penetravam na carne meio comida pela doença. Baleia encostava a cabecinha fatigada na pedra. A pedra estava fria, certamente Sinhá Vitória tinha deixado o fogo apagar-se muito cedo.

                                                                                                        “ Baleia queria dormir. Acordaria feliz, num mundo cheio de preás. E lamberia as mãos de Fabiano, um Fabiano enorme. As crianças se espojariam com ela, rolariam com ela num pátio enorme, num chiqueiro enorme. O mundo ficaria todo cheio de preás, gordos, enormes.”

4. Uma máxima?

           “Tudo o que é sólido se desmancha no ar”. (Karl Marx, antecipando a física quântica e revisitando os taoistas.)

5. Uma palavra?

           Escalafobético. Porque instaura o riso.

6. Uma admiração?

           Antônio Girão Barroso, meu pai, que fez de sua vida uma poesia. Como disse um amigo seu: “O Girão é o único poeta dispensado de escrever versos”. Apesar de tê-los escritos e bons.

7. Uma aversão?

           Poder e autoridade. Mandar e ser mandado. Tudo o que é pretensioso e exibicionista.

8. Uma lembrança?

          Duas. Eu tinha quatro anos e passava com minha mãe pela Praça do Carmo, onde os últimos bondes estavam estacionados. Ela comentou que logo eles seriam desativados, em Fortaleza. Do baixo da minha pequenez, questionei. – Mas mamãe, por que vão fazer isso? Quanto mais transporte, não é melhor? (Depois, acabaram também os trens de passageiros.) Minha mãe nunca esqueceu isto.
           Outra vez eu tinha 11 anos. Meu pai viajava pelo interior do Ceará fundando cooperativas. Às vezes me levava. Ele na frente, conversando com o motorista, e eu atrás, imerso em meus pensamentos. Passávamos por Quixadá e eu liguei a imagem de seus magníficos monólitos com um sermão que ouvira dias antes, da boca de um jesuíta, durante um retiro na Igreja do Cristo Rei. O padre citava não sei se Santo Agostinho ou São Tomás de Aquino, mas se referia à ideia de eternidade. Dizia ele: - Imagine um passarinho, de século em século, roçando seu bico no alto de uma montanha. Quando a montanha, por ação do passarinho, tiver se desgastado completamente, terá passado um dia da eternidade.
         Eu olhava a montanha e aquela ideia me parecia mais terrível ainda. Como seria possível, daqui a bilhões e bilhões de anos, nós ainda existirmos, mesmo que no céu. Quem suportaria tamanha eternidade? Aflito, pedi a meu pai que parasse o carro. Eu queria descer. - Por quê?  - Para não correr o risco de entrar na eternidade. Meu pai pensou um pouco e respondeu: - Não se preocupe com isso, não tem a menor importância.

9. Um desejo?

           Ver registrado o Reisado brasileiro, em suas muitas variantes, como patrimônio cultural da humanidade.

10. Um projeto?

           Escrever um grande romance épico, feito uma narrativa de viagens, fundindo algumas das inú-meras peripécias que passei e me contaram, num volumoso livro de aventuras.




Doutor em Sociologia pela Universidade Federal do Ceará, e Pós-Graduado em Gestão Cultural pela ANFIAC/Paris, Oswald Barroso tem 19 livros publicados: são volumes de poesia, textos para teatro, organização de antologia literária, artigos acadêmicos, biografias, reportagens e estudos sobre cultura popular. Mas, sobretudo, Oswald Barroso é um grande camarada e está à disposição no endereço: http://www.oswaldbarroso.com.br; vale a pena visitá-lo.


 
 
 
 
 
 
 
 




...Tomei-lhe da direita o Livro e pu-lo     (17)
Na boca, a mastigá-lo vorazmente.
Minhas tripas se amargam com o Opúsculo
E assolam-me visões, rapidamente!

Estrigas deu-me régua pra medir                   
Da Catedral altura e comprimento
Quando Antonio Bandeira e Aldemir
São sequestrados por um pé-de-vento.

Vi Zenon despejando um temporal,
A onda vir eu vi — que maremoto!
Trocentos afogados em Sobral
(Uma pena não ter batido a foto).

Ednardo tocou Maracatu                       (18)
Atrepado em Pavão Misterioso.
Depois teve foguete pra xuxu
E o Solar num batuque poderoso.

Bárbara de Alencar eu vi surgir                         (19)
Súbita, revestida de Sol, grávida.
E o filho de seu Ventre, o que há de vir,
Se(a)rá prenúncio duma Raça Impávida.

Mas o Dragão Maldaz da Monarquia,
Da Tirania, do Lucro capital
Pugna contra a Senhora e a comeria
Não fosse a intervenção de um Maioral:

Vi Tristão Araripe combatendo
O Monstro escrofuloso, esse Apostema.
Vi o Demo caindo e se escondendo
Nas areias da Praia de Iracema.

Eis dois novos Vilões mostram as caras, (20)
Cada qual mais Tinhoso e Grãovizir.
Disseminando pústulas e taras,
Um tinha por alcunha “Iguatemi”.

O Segundo, blasfemo, engrolador,
Obrava maravilhas, coisa e tal.
6,6,6 o valor de Belfegor
E seu nome era “Igreja Universal”.

Vi além Boi Mansinho e o Caldeirão,
Cento e quarenta e quatro mil pessoas.
O Canelal fazendo a previsão
De um mundo vasto só de coisas boas.

Eu vi Cego Aderalgo e Azulão
Cantando acompanhados por Leota:
“Benditos os eleitos da Nação,
Os que não sairão jamais da Rota”.

Vi Rubens, Nirez, Sânzio de Azevedo,
Os três alvissarando os Céus e a Glória:
“Baby Lônia já não nos mete o dedo,
Sua praga é maldade transitória”.

Vi Chico da Matilde numa Barca
Entre nuvens, lançando a Rede à Terra:
Recolhe multidão de boa marca
Ao passo que outra, inútil, xinga e berra.

Chegarem, divisei, periclitantes,          (21)
Mario Gomes e a sombra morta-viva —
Carregando Meiotas transbordantes,
Cada qual destinada a um Conviva.

Capistrano de Abreu derrama a sua
Sobre o asfalto da Washington Soares.
Boçais, almofadinhas e peruas
Caem duros com cólicas e esgares.

Moreira Campos já deita a Cachaça
Nas praias do Meireles, Cais do Porto.
As águas viram diesel pra desgraça
Do ermo litoral, ora sem voz, morto.

Vem Rachel de Queiroz e também lança
Às margens do Riacho Pajeú
Quinze doses que espalham devastança
Até Opaia e Porangabussu.

Na Costa Sol Poente é que João
Nogueira Jucá joga a Aguardente.
Cumpre o jovem a tórrida missão
De atirar à fogueira muita gente.

Padre Mororó pinga no Cambeba
A Pinga que lhe foi predestinada.
O Trono se dissolve feito ameba,
Dos puxassacos pune-se a cambada.

Brava Jovita asperge no Pecém
Toda Birita e as águas se evaporam.
Industriais falidos não contêm
O desânimo e juntos babam, choram.

O derradeiro, Pinto Martins, ergue       (22)
Ao ar a Cana e a esparge, deletéria.
Tempo ruim — até que alguém entregue
À prisão o Capelão da Base Aérea.

Vem Juarez Barroso apresentar-me    (23)
À Pensão de Margô, a Prostiputa:
Esta, em vestes de púrpura, com charme
Punha a perder inúmeros, arguta.

Diz ele: “Não te espantes, que se acaba
O explorar de crianças e menores;
O turista imoral que menoscaba
Nossos piás verá, em breve, horrores!”

Vi Dom Helder lançar um meteoro
Nas profundas do Rio Coaçu:
Disse “expulso será o Desaforo

Do Mal — desde o Siqueira ao Pirambu”.

Eu vi o aglomerado de impostores,
Deputados, juizes e empresários
Padecendo qual fossem torcedores
Do Leão, do Vovô, Ferroviário.

Geraldo Amâncio em coro com Portela
Num repente em louvor ao Ceariri:
Quadrilhas, Bois, Reisados na favela
Comemorando a volta de Peri.

Vi contornando a Várzea, num jumento,
Padre Antonio Vieira, alegre, esperto.
Vinha pr’auxiliar no Julgamento
Mas uma Besta-Fera andava perto.

Prestes chega José Alcides Pinto
Doidinho por mover guerra ao Dragão.
Algemou a Serpente e par’os Quintos
A despenhou, no abismo sob o Chão.

Vi José de Alencar refestelado             (24)
Numa espreguiçadeira, a deportar
Gomes e Jereissatis pr’outr’Estado,
Bem distante de nosso Siará.

E se tudo precisa delatar
Aquele que, vidente, tudo viu,
Declaro que os culpados vão penar
No Inferno Da Puta Que Os Pariu!

E eu vi erguer-se a Noiva Prometida,   (25)
A Esposa, Fortaleza Libertada.
Era a Cidade Inteira uma Avenida
Sem carros, sem sinais, sem barroada.

As gentes passeando sem receio,
Sem vislumbre de fome ou de miséria.
Sem prefeita ou polícia de permeio,
Eu vi a Capital luzir, Sidérea.





      Arásia era uma mulher muito sábia, seus 40 filhos bem testemu-nhavam os dons da mãe. Ela fazia a comida e limpava a casa. Banhava ela mesma todos os filhos, principalmente os mais idosos. Não temia a morte e era artista: juntava dos gravetos que queimavam no forno aqueles que lhe pareciam bons para que, ligados a uma gosma resultante de restos do almoço bem mastigados e sabão, criassem por si esculturas de sentido inconsciente. Os rostos das crianças eram estúpidos, tentavam entender as razões, quais-quer que fossem, para que a mãe pusesse aquele ente de lixo e insensatez à face de quem entrasse na casa, logo de frente à porta. Arásia então sentava e começava a explicar o que tinha feito, no que sempre todos concordavam e se queixavam por não o haverem entendido antes. Uns lamenta-vam terem chegado perto, mas não o suficiente. Quem compreendia, entre-tanto, quando ela, no outro dia, se sentava ao lado da coisa e lhe explicava de outro modo, como se fosse o contrário do que era? Como explicar que o objeto parecesse ser mesmo aquela outra coisa, e não anterior, e, como uma mentira absurda, isto dito ontem pouco valesse, como se os gravetos houvessem pedido a palavra para explicar-se melhor? E como, já no outro dia, e nos outros, versões diferentes tombavam uma a uma no alvorecer de um novo mundo, sempre sedutor e verdadeiro, como isso se explicará?
      No dia que Arásia morreu, temia-se que sua arte também acabasse, porque ninguém a entendia antes de suas explicações, sempre tão belas e contra-ditórias. Até que seu trigésimo primeiro filho teve que explicar seu sentimento perante a morte da matriarca. Logo cada irmão falava uma coisa e a casa preenchia-se de verdadeira arte explicativa, dia a dia renovando-se sobre o mesmo substrato. O cadáver da mãe grudado em sabão, comida estragada e graveto, acendia a sala com morte e esperança de que é inesgotável o sentido da vida.







"ÁRVORA DA VIDA" - OBRA DE VANDO FARIA
Espaço alternativo Sabor Naif da Pizzaria e Galeria Sabor da Massa
Rua Conrado Cabral, 802, Monte Castelo.


O Sertão é um mar

Para Antonio Conselheiro

O Sertão é um mar
De ossos, destroços
Desgostos, desânimo.

O Sertão é a seca
Encarnada, descarnada
Sem vida, sem água.

O Sertão é a morte
A falta, a ânsia
O calor, a dor.

O Sertão é o inferno
Sem fim, eterno
É a vítima, o algoz.

O Sertão é um mar
O Sertão somos nós.

Francisco José da Silva






LAPSO
Frederico Régis

O silêncio é uma arma transparente
Para extravasar os olhos dos vivos

O ruído das cortinas na ferrugem
Constitui-se de uma guerra muda
Que sobressalta mortos despercebidos

 

Do livro “Os Países (Campanha Ultramundos )”, a ser lançado breve-mente (o autor continua a garantir).


AURORA
Nonato Nogueira

Viva a tragédia!
O drama de Shakespeare
A morte da poesia
A santa nua
O sexo da meretriz

Viva a comédia
A dialética da morte
O esperma da vida
O óvulo infeliz
O meu nariz

Viva o teatro!
O primeiro ato
O desejo inato
O eterno palhaço
O velho nato

Viva o espaço!
O demônio libertado
A força criadora
O princípio do fim
O átomo

 

Do livro inédito “A Solidão de Nietzsche”, coleção de contos, crônicas e poemas dedicados ao grande filósofo.


 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
   
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
   
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
   
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
   
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
   
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
   
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
   
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
   
 
             






             As gentes passeando sem receio,
             Sem vislumbre de fome ou de miséria.
             Sem prefeita ou polícia de permeio,
             Eu vi a Capital luzir, Sidérea.







             Fui eu, Meia-Tigela, que avistei (26)
             As coisas relatadas: meus Amigos,
             Ai! de quem não crê no que revelei,
            Ai! dos que não veem mais que seus umbigos!


NOTAS:

 

(17) O poeta continua a descrição das Visagens. Seguem as imagens em paralelo com o original bíblico: a medição do Templo vira a medição da Catedral de Fortaleza. (18) Ednardo e o Maracatu Solar,  arautos da sétima e última trombeta. (19) Bárbara de Alencar no papel da “mulher vestida de sol”, e Tristão no lugar de São Miguel.  (20) Em nova atualização de sua Visão, o Poeta dá nome às duas Feras apocalípticas: crítica ferrenha que prosseguirá até o fim da revelação.

(21) Doravante, a paródia ao episódio das sete taças. Os perso-nagens não são aleatórios: além de Mario Gomes como portador do flagelo líquido, citemos João Nogueira Jucá, o qual sacrificara heroicamente a vida quando do incêndio de 1959 (teve por isso um busto erguido na Praça da Lagoinha), e vem a substituir no poema o anjo bíblico que despejara a taça sobre o sol.

(22) Como novo exemplo do cuidado do poeta na escolha dos tipos, temos Pinto Martins: na qualidade de aviador (kamikase, quase, já que se suicidou em 1924), não poderia caber a outro a atribuição da “taça derramada no ar”. (23) A seguir ao derramamento das taças, e consequentes pragas, Juarez Barroso surge para introduzir a que fará as vezes da Grande Prostituta: no caso, Margô, Margarida Pereira de Sousa, do romance Doutora Isa.

(24) Com a expulsão definitiva do Dragão da Maldade por José Alcides Pinto (lembremos que este é autor de um romance intitulado O Dragão, da Trilogia da Maldição), terá início o Julgamento Final que apartará os bons dos maus, a saber: expulsará os sanguessugas do Estado para longe, um lugar a que o poeta não hesita em denominar com todas as letras. (25) Inicia-se a descrição utópica de uma Fortaleza transfigurada: a propósito, similar àquela feita no poema “Marco Infinito: Fortaleza”, presente no livro Memorial Bárbara de Alencar & outros poemas. (26) Exortação Final: enquanto leitores atentos, levemo-La em consideração...


 
 
 
 
 
 
 
 
 
   
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
   
 
             
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
   
 
             
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
          

       ENTÃO, subitamente, vi-me ali: entre mãos leprosas e risos engasgados, entre cheiro de bosta e aroma de leite quente, entre carícias de veludo e unhas de gatos com rancor, ali estava. E em dezessete dias morreria. Morria, sim, sabia. A cigana de olhos vazados e dentes quebrados me disse, enquanto o anão puxava a ponta de meu vestido e suplicava por cochichar segredos indizíveis. Dezessete dias, minha santa, anunciou.
       ENTÃO, já longe de toda aquela algazarra, distante de todo aquele burburinho, só havia o mar. O mar e a noite. O mar na noite. A noite do mar.
       – É assim... – ele disse. Fez pausa e prosseguiu:
       – Viver, às vezes, é tão bom que dá vontade de morrer.
       E só olhava para os próprios passos na areia da praia, lentos, precisos. Seu semblante era sereno. Como se toda a Nona Sinfonia de Beethoven fosse inútil. Como se quarenta graus negativos fossem bobagem. Nada se comparava à solidão humana. Por essa aprendizagem, quis beijar sua cabeça calva, cheirar sua barba, tentar uma carícia impossível e sentir todo ele, ele... Tão polifônico, ele... Fiquei quieta, percebendo o mofo de sua casaca, o pó do tempo sobre seus bigodes... Fiquei quieta, e só o mar falou, as ondas na praia, nenhuma certeza além daquela – nada de coisa nenhuma pode durar.
       ENTÃO, voltaram os dedos leprosos, as latrinas e leiteiras, o anão safado buscando em outras saias outras possibilidades, o riso perpétuo a fazer rostos se contorcerem de tanto chorar. Um gato se lambendo, candidamente. Almofadas cor de vinho para um sono eterno. Dezessete dias, minha santa, soprou a cigana, cruzando novamente meu caminho, com um sorrisinho quase meigo. Mas isso eu já sabia. E soube também, na areia da praia de uma noite enfeitiçada e sem lua no céu: nada pode durar.

       DEPOIS, trouxeram mais comprimidos e compressas. Mas a febre não baixou.



"Em 2068, por todos os lugares do mundo, de um lado, sessenta famílias controlando toda a riqueza do planeta enquanto seus aparatos de poder reagem violentamente ao que chamam de desordem das massas. Do outro, milhões de pessoas invadem no mesmo inzstante os gabinetes corporativos e governamentais. São os braços de três bilhões de sobreviventes que se organizam mundialmente através da Grande Rede e deliberam regras para regular a desordem esgotadora de pessoas
e natureza que perdurou por mais de cinco séculos."


          – Não deixaremos que esta anarquia continue assolando o mundo. Diz um bigodudo senhor no meio da imensa mesa de sessenta lugares ocupados.
           – De hoje não passará, senhor Karl Mittali. Apresento-lhes o plano que nossas corporações deverão seguir.
Todos olham ansiosos para o grande holograma que surgiu no auto da mesa. Walton Lee Rockefeller prossegue:
          – Vejam esta constelação de satélites ao redor da Terra. A maioria deles está equipada com canhões Zhaarp que, disparados em direção a todas as cidades da Terra, inutilizarão todos os equipamentos eletrônicos. Será o fim da Internet e com ela todas as mobilizações que atentam contra a liberdade dos empreendimentos.
         – Mas, sem Internet, como ficarão nossos negócios? Se voltarmos à era do papel, dos contratos através de correios, nossos lucros cessarão. Diz um gordo senhor.
         – Muito simples, senhor Carl Johnson. A partir de amanhã passará a funcionar a mundial rede fotônica, a única imune aos pulsos Zhaarp. Todas as nossas operações passarão a utilizá-la. Diferente da Internet baseada em eletrônicos e totalmente descontrolada, a rede fotônica (que utiliza somente raios luminosos) será centralizada e apenas os conteúdos que nos interessam trafegarão por ela. Devemos firmar agora o compromisso de que nossas Indústrias nunca mais produzirão eletrônicos. Tiremos assim a ferramenta com que os baderneiros se mobilizam e retomaremos o controle do mundo, a tranqüilidade dos nossos negócios.
          Todos aplaudem exultantes. Pequenos hologramas em frente de cada magnata coletam suas assinaturas biométricas. Cada corporação recebe uma parte a ser cumprida no plano. O grande holograma central se transforma em um imenso cronômetro em contagem regressiva, mostrando o tempo inicial de seis horas, seis minutos e seis segundos.

(Capítulo do romance inédito RETORNO AO BIG BANG MICROCÓSMICo, já no prelo)










“O poetar não é imitar a natureza. A poesia é verdadeira num sentido mais elevado do que a realidade efectiva comum. O poeta é um espírito mais profundo, que perscruta a substância, que um outro também tem em si, mas não lhe vem à consciência. (...) Por isso, o poeta é um vidente. — O poeta une o esplendor da natureza num todo como atributo de algo mais alto: o azul do éter é a sua veste, as flores são os seus mensageiros, etc.”. HEGEL, G. W. F. Propedêutica filosófica, Terceira Parte — Ciência do Espírito, B. A Imaginação, § 154, pp. 64-65; tradução de Artur Morão, Lisboa, Edições 70, 1988.