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Não é que conseguimos retornar? Com a tiragem reduzida à metade, bem verdade, mas em compensação com o número de páginas duplicado! E, se tamanho não é documento noutros casos, neste a coisa mostra-se diferente: porque a duplicação da Volante implica a também apresentação de textos — bons textos — em dobro. Poemas de Carlos Roberto VaZconcelos, Francisco da Silva (vulgo Chico Bento), Frederico Régis, Raimundo Nonato e Uirá dos Reis; contos de Ary Salgueiro e Cellina Muniz; trecho de romance inédito de Denis Moura, e a inauguração do “Quiztionário”, nesta edição com Oswald Barroso. Carlos Roberto VaZconcelos (ele, novamente) evoca na seção “Procura-se” a figura “brigante” de Adolfo Caminha, e o Poeta de Meia-Tigela encerra (para alívio de todos) o seu Apocalipsiará. Voemos, então, que a resposta (ainda) está soprando no vento. o tempo Deus é contemporâneo a eternidade é contemporânea a solidão é contemporânea viver é contemplar pensar é contemplar morrer é contemplar o tempo não tem tempo o tempo e a memória o tempo não olha para trás o tempo compõe mistérios o tempo é insensível o tempo não tem idade o tempo desata os braços o tempo não se demora o tempo e a memória 1. Um livro? Grande e Estranho é o Mundo, de Ciro Alegria, publicado pela primeira vez em 1941, no Peru. Um dos livros de preferência de minha mãe Alba Cavalcante Barroso, uma inveterada leitora, que me transmitiu o gosto pela leitura de romances. O título já diz bem desse grande e estranho livro, de autoria de um dos maiores escritores de língua hispânica, peruano de nascimento e discípulo de César Vallejo. O livro descreve magistralmente a luta de uma comunidade indígena do Peru, a terra natal de Ciro Alegria, em defesa de sua terra, contra latifundiários, exército e governo a serviço dos Estados Unidos. Foi como um precursor do chamado realismo fantástico latino-americano. 2. Um (a) autor (a)? Miguel de Cervantes (de Dom Quixote) e Calderon de la Barca (dramaturgo e autor de A Vida é Sonho), representando os escritores do renascimento espanhol, talvez o mais notável período da história da cultura ocidental. 3. Um trecho? De Vidas Secas, Graciliano Ramos. Trecho do capítulo sobre a morte da cachorra Baleia. 4. Uma máxima? “Tudo o que é sólido se desmancha no ar”. (Karl Marx, antecipando a física quântica e revisitando os taoistas.) 5. Uma palavra? Escalafobético. Porque instaura o riso. 6. Uma admiração? Antônio Girão Barroso, meu pai, que fez de sua vida uma poesia. Como disse um amigo seu: “O Girão é o único poeta dispensado de escrever versos”. Apesar de tê-los escritos e bons. 7. Uma aversão? Poder e autoridade. Mandar e ser mandado. Tudo o que é pretensioso e exibicionista. 8. Uma lembrança? Duas. Eu tinha quatro anos e passava com minha mãe pela Praça do Carmo, onde os últimos bondes estavam estacionados. Ela comentou que logo eles seriam desativados, em Fortaleza. Do baixo da minha pequenez, questionei. – Mas mamãe, por que vão fazer isso? Quanto mais transporte, não é melhor? (Depois, acabaram também os trens de passageiros.) Minha mãe nunca esqueceu isto. 9. Um desejo? Ver registrado o Reisado brasileiro, em suas muitas variantes, como patrimônio cultural da humanidade. 10. Um projeto? Escrever um grande romance épico, feito uma narrativa de viagens, fundindo algumas das inú-meras peripécias que passei e me contaram, num volumoso livro de aventuras. Doutor em Sociologia pela Universidade Federal do Ceará, e Pós-Graduado em Gestão Cultural pela ANFIAC/Paris, Oswald Barroso tem 19 livros publicados: são volumes de poesia, textos para teatro, organização de antologia literária, artigos acadêmicos, biografias, reportagens e estudos sobre cultura popular. Mas, sobretudo, Oswald Barroso é um grande camarada e está à disposição no endereço: http://www.oswaldbarroso.com.br; vale a pena visitá-lo. ...Tomei-lhe da direita o Livro e pu-lo (17) Estrigas deu-me régua pra medir Vi Zenon despejando um temporal, Ednardo tocou Maracatu
(18) Bárbara de Alencar eu vi surgir
(19) Mas o Dragão Maldaz da Monarquia, Vi Tristão Araripe combatendo Eis dois novos Vilões mostram as caras, (20) O Segundo, blasfemo, engrolador, Vi além Boi Mansinho e o Caldeirão, Eu vi Cego Aderalgo e Azulão Vi Rubens, Nirez, Sânzio de Azevedo, Vi Chico da Matilde numa Barca Chegarem, divisei, periclitantes, (21) Capistrano de Abreu derrama a sua Moreira Campos já deita a Cachaça Vem Rachel de Queiroz e também lança Na Costa Sol Poente é que João Padre Mororó pinga no Cambeba Brava Jovita asperge no Pecém O derradeiro, Pinto Martins, ergue (22) Vem Juarez Barroso apresentar-me (23) Diz ele: “Não te espantes, que se acaba Vi Dom Helder lançar um meteoro Eu vi o aglomerado de impostores, Geraldo Amâncio em coro com Portela Vi contornando a Várzea, num jumento, Prestes chega José Alcides Pinto Vi José de Alencar refestelado (24) E se tudo precisa delatar E eu vi erguer-se a Noiva Prometida, (25) As gentes passeando sem receio, Arásia era uma mulher muito sábia, seus 40 filhos bem testemu-nhavam os dons da mãe. Ela fazia a comida e limpava a casa. Banhava ela mesma todos os filhos, principalmente os mais idosos. Não temia a morte e era artista: juntava dos gravetos que queimavam no forno aqueles que lhe pareciam bons para que, ligados a uma gosma resultante de restos do almoço bem mastigados e sabão, criassem por si esculturas de sentido inconsciente. Os rostos das crianças eram estúpidos, tentavam entender as razões, quais-quer que fossem, para que a mãe pusesse aquele ente de lixo e insensatez à face de quem entrasse na casa, logo de frente à porta. Arásia então sentava e começava a explicar o que tinha feito, no que sempre todos concordavam e se queixavam por não o haverem entendido antes. Uns lamenta-vam terem chegado perto, mas não o suficiente. Quem compreendia, entre-tanto, quando ela, no outro dia, se sentava ao lado da coisa e lhe explicava de outro modo, como se fosse o contrário do que era? Como explicar que o objeto parecesse ser mesmo aquela outra coisa, e não anterior, e, como uma mentira absurda, isto dito ontem pouco valesse, como se os gravetos houvessem pedido a palavra para explicar-se melhor? E como, já no outro dia, e nos outros, versões diferentes tombavam uma a uma no alvorecer de um novo mundo, sempre sedutor e verdadeiro, como isso se explicará?
é um templo sagrado
o tempo
é um templo vazio
o tempo
é um templo
do tempo
do tempo
do tempo
o tempo
o tempo
o tempo
tomam caminhos opostos
a memória cata as migalhas
a memória retém segredos
a memória é sentimental
a memória sente saudade
a memória reata os laços
o tempo é um rio nato
a memória nada contra o regato
a memória pergunta as horas
tomam caminhos opostos
Recorto, para os leitores, uma pequena passagem do livro: “Os que mandam, justificam-se dizendo: ‘Vão para outra parte, que o mundo é grande’. Certo, é grande. Mas eu (...) conheço o mundo grande onde nós, os pobres, costumamos viver. E eu lhes digo com toda a sinceridade que pra nós, os pobres, o mundo é grande, porém estranho. (...) Alguns sonham e acreditam que o que não viram é melhor. E se vão pra longe, procurando outra vida. Quem voltou? (...) E eu lhes digo que podemos chorá-los como mortos ou escravos. (...) Nesse mundo grande, mudamos de lugar, vamos de um lado pra outro buscando a vida. Mas o mundo é indiferente e nada nos dá, nem sequer um bom salário, e o homem morre com a testa grudada numa terra amarga de lágrimas”.
É significativo o modo como o livro (não) termina: “Mais perto, cada vez mais perto, o estampido das metralhadoras continua soando.” O título original do livro em espanhol é El Mundo es Ancho y Ajeno, e bem poderia ser traduzido como O Mundo é Hostil e Distante, hoje mais ainda.
“Abriu os olhos a custo. Agora havia uma grande escuridão, com certeza o Sol desaparecera.
Os chocalhos das cabras tilintaram para os lados do rio, o fartum do chiqueiro espalhou-se pela vizinhança. Baleia assustou-se. Que faziam aqueles animais soltos de noite? A obrigação dela era levantar-se, conduzi-los ao bebedouro. Franziu as ventas, procurando distinguir os meninos. Estranhou a ausência deles.
Não se lembrava de Fabiano. Tinha havido um desastre, mas Baleia não atribuía a esse desastre a impotência em que se achava nem percebia que estava livre de responsabilidades. Uma angústia apertou-lhe o pequeno coração. Precisava vigiar as cabras: àquela hora cheiros de suçuarana deviam andar pelas ribanceiras, rondar as moitas afastadas. (...)
Baleia respirava depressa, a boca aberta, os queixos desgovernados, a língua pendente e insensível. Não sabia o que tinha sucedido. O estrondo, a pancada que recebera no quarto e a viagem difícil do barreiro ao fim do pátio desvaneciam-se no seu espírito.
(...)
A tremura subia, deixava a barriga e chegava ao peito de Baleia. Do peito para trás era tudo insensibilidade e esquecimento. Mas o resto do corpo se arrepiava, espinhos de mandacaru penetravam na carne meio comida pela doença. Baleia encostava a cabecinha fatigada na pedra. A pedra estava fria, certamente Sinhá Vitória tinha deixado o fogo apagar-se muito cedo.
Outra vez eu tinha 11 anos. Meu pai viajava pelo interior do Ceará fundando cooperativas. Às vezes me levava. Ele na frente, conversando com o motorista, e eu atrás, imerso em meus pensamentos. Passávamos por Quixadá e eu liguei a imagem de seus magníficos monólitos com um sermão que ouvira dias antes, da boca de um jesuíta, durante um retiro na Igreja do Cristo Rei. O padre citava não sei se Santo Agostinho ou São Tomás de Aquino, mas se referia à ideia de eternidade. Dizia ele: - Imagine um passarinho, de século em século, roçando seu bico no alto de uma montanha. Quando a montanha, por ação do passarinho, tiver se desgastado completamente, terá passado um dia da eternidade.
Eu olhava a montanha e aquela ideia me parecia mais terrível ainda. Como seria possível, daqui a bilhões e bilhões de anos, nós ainda existirmos, mesmo que no céu. Quem suportaria tamanha eternidade? Aflito, pedi a meu pai que parasse o carro. Eu queria descer. - Por quê? - Para não correr o risco de entrar na eternidade. Meu pai pensou um pouco e respondeu: - Não se preocupe com isso, não tem a menor importância.
Na boca, a mastigá-lo vorazmente.
Minhas tripas se amargam com o Opúsculo
E assolam-me visões, rapidamente!
Da Catedral altura e comprimento
Quando Antonio Bandeira e Aldemir
São sequestrados por um pé-de-vento.
A onda vir eu vi — que maremoto!
Trocentos afogados em Sobral
(Uma pena não ter batido a foto).
Atrepado em Pavão Misterioso.
Depois teve foguete pra xuxu
E o Solar num batuque poderoso.
Súbita, revestida de Sol, grávida.
E o filho de seu Ventre, o que há de vir,
Se(a)rá prenúncio duma Raça Impávida.
Da Tirania, do Lucro capital
Pugna contra a Senhora e a comeria
Não fosse a intervenção de um Maioral:
O Monstro escrofuloso, esse Apostema.
Vi o Demo caindo e se escondendo
Nas areias da Praia de Iracema.
Cada qual mais Tinhoso e Grãovizir.
Disseminando pústulas e taras,
Um tinha por alcunha “Iguatemi”.
Obrava maravilhas, coisa e tal.
6,6,6 o valor de Belfegor
E seu nome era “Igreja Universal”.
Cento e quarenta e quatro mil pessoas.
O Canelal fazendo a previsão
De um mundo vasto só de coisas boas.
Cantando acompanhados por Leota:
“Benditos os eleitos da Nação,
Os que não sairão jamais da Rota”.
Os três alvissarando os Céus e a Glória:
“Baby Lônia já não nos mete o dedo,
Sua praga é maldade transitória”.
Entre nuvens, lançando a Rede à Terra:
Recolhe multidão de boa marca
Ao passo que outra, inútil, xinga e berra.
Mario Gomes e a sombra morta-viva —
Carregando Meiotas transbordantes,
Cada qual destinada a um Conviva.
Sobre o asfalto da Washington Soares.
Boçais, almofadinhas e peruas
Caem duros com cólicas e esgares.
Nas praias do Meireles, Cais do Porto.
As águas viram diesel pra desgraça
Do ermo litoral, ora sem voz, morto.
Às margens do Riacho Pajeú
Quinze doses que espalham devastança
Até Opaia e Porangabussu.
Nogueira Jucá joga a Aguardente.
Cumpre o jovem a tórrida missão
De atirar à fogueira muita gente.
A Pinga que lhe foi predestinada.
O Trono se dissolve feito ameba,
Dos puxassacos pune-se a cambada.
Toda Birita e as águas se evaporam.
Industriais falidos não contêm
O desânimo e juntos babam, choram.
Ao ar a Cana e a esparge, deletéria.
Tempo ruim — até que alguém entregue
À prisão o Capelão da Base Aérea.
À Pensão de Margô, a Prostiputa:
Esta, em vestes de púrpura, com charme
Punha a perder inúmeros, arguta.
O explorar de crianças e menores;
O turista imoral que menoscaba
Nossos piás verá, em breve, horrores!”
Nas profundas do Rio Coaçu:
Disse “expulso será o Desaforo
Deputados, juizes e empresários
Padecendo qual fossem torcedores
Do Leão, do Vovô, Ferroviário.
Num repente em louvor ao Ceariri:
Quadrilhas, Bois, Reisados na favela
Comemorando a volta de Peri.
Padre Antonio Vieira, alegre, esperto.
Vinha pr’auxiliar no Julgamento
Mas uma Besta-Fera andava perto.
Doidinho por mover guerra ao Dragão.
Algemou a Serpente e par’os Quintos
A despenhou, no abismo sob o Chão.
Numa espreguiçadeira, a deportar
Gomes e Jereissatis pr’outr’Estado,
Bem distante de nosso Siará.
Aquele que, vidente, tudo viu,
Declaro que os culpados vão penar
No Inferno Da Puta Que Os Pariu!
A Esposa, Fortaleza Libertada.
Era a Cidade Inteira uma Avenida
Sem carros, sem sinais, sem barroada.
Sem vislumbre de fome ou de miséria.
Sem prefeita ou polícia de permeio,
Eu vi a Capital luzir, Sidérea.
No dia que Arásia morreu, temia-se que sua arte também acabasse, porque ninguém a entendia antes de suas explicações, sempre tão belas e contra-ditórias. Até que seu trigésimo primeiro filho teve que explicar seu sentimento perante a morte da matriarca. Logo cada irmão falava uma coisa e a casa preenchia-se de verdadeira arte explicativa, dia a dia renovando-se sobre o mesmo substrato. O cadáver da mãe grudado em sabão, comida estragada e graveto, acendia a sala com morte e esperança de que é inesgotável o sentido da vida.

