volante

Tutorial

Segundo o DICIONÁRIO HOUAISS DA LÍNGUA PORTUGUESA, “volante” pode significar “o que tem a capacidade de voar”; o “que é móvel”; “que é nômade, vagabundo”; e, por extensão, “que ondula”, “que não permanece, é transitório”. Ou ainda: “direção, guidom”; “tropa ligeira, que não transporta artilharia nem bagagem” e “forma reduzida de FOLHA VOLANTE”. Todas as acepções citadas dizem respeito a este jornal: porque corre o risco de ser carregado por qualquer pé-de-vento, tem ele a capacidade de voar, flutuar, mas também porque não lhe falta imaginação; não é fixo nem tem endereço certo porque embora pretenda sempre cair em mãos amigas, sugere que estas o façam continuamente dar voltas, circular; efêmero, porque não obstante a pretensão de veicular durante anos a fio literatura de sustança, sabe que uma coisa é planejamento, outra, realização. “Direção”, porque não conhecendo exatamente onde vai parar, procura no entanto dirigir-se a olhares atentos. E assim, não deixam as presentes páginas de ser igualmente uma espécie de “tropa ligeira”, porém com as seguintes ressalvas: não persegue cangaceiros; possui poder de artilharia e, sem dúvida, alguma bagagem.Finalmente, como tais afirmações não valem por si mesmas, merecendo maior comprovação, deixamos a cargo do tempo e dos leitores que as confirmem ou rejeitem. — Adiante, pois, que a v.o.l.a.n.t.e é FOLHA LIGEIRA.

— Adiante, pois, que a v.o.l.a.n.t.e é FOLHA LIGEIRA.

Antonio Ximenes

Retire de meus pulsos esta algema
Não estava no contrato a clausura
No festejo filmado cena a cena
Não sangrei sobre minha assinatura

O que é meu não chega a ser teu
E o que é teu não me interessa

Abra as asas diante da TV
Cumpra tua missão impossível
Pois a verdade que ninguém vê
Sempre será aquela mais visível

O meu desejo acumula em bicas
E o teu cansaço não me comove

Desemboca tênue a queda d’água
No ápice da tua enxaqueca
Vislumbro destro a castra mágoa

O rombo sutil em nossa cerca
No meu mundo limito minhas fugas
E no teu instituíste milícias

Antonio Ximenes é editor de “O Pitoresco”, espaço para propagar poesias, textos e diversos.






A Visagem me veio a horas mortas (1)
Fofocar a respeito do futuro
E o que brechei, traduzo em linhas tortas
Pra vocês, muito embora sem apuro.
. . .


Eu — De Meia-Tigela, de ressaca
Num domingo, aloprado fui, em alma,
Por um Clarão da porra, urucubaca,
Visão de matar ou deixar com trauma.

Vi Conselheiro brabo, empertigado
Entre os raios de tiros de escopeta.
Ele me disse “digite, seu safado,
O qu’eu ordenar, deixe de mutreta!”

“Ao Vate Frederico Anzóis Pereira (2)
Da metropolitana região:
Tens pelejado contra a baboseira
Do caos contemporâneo: ‘guenta, irmão!”

“Ao Médico-Pastor filho de Alcântaras, (3)
Intenso forjador de caetanias:
No mundo o Carcinoma age às escâncaras
Porém curas o Mal com poesias.”

“Ao Maldito Revel, Louco Ansisoso, (4)
Assassino de Vila de Coité:
Em tudo foste incréu, libidinoso
Mas ao Poema deste inteira fé”.

“Ao Aedo de Estêvão, Dom Maurício, (5)
Maracajá na luta em prol do bem:
Se combater a posse é tão difícil,
Sabes que o Verso é Terra de Ninguém.”

“Ao Tecedor Russano de Punhais, (6)
Cronista das Raízes, reconheço:
No teu Quadrante vivem vicinais
Os sinais do porvir — tens meu apreço!”


“Ao Bardo das Miranças nato em Lavras (7)
Da Mangabeira, pródigo de Engenho:
No culto da Palavra te escalavras,
Ralas, e o Verbo ganha co’esse empenho.”


“Ao Poeta Campônio, Sertanejo (8)
Passarinho de Serra de Santana:
Há, em ti, mais fulô qu’ispinho — e almejo
Dure sempre essa Verve soberana!”

Enviado o eletrônico correio, (9)
Lançado ao teto fui, dond’entrevi
Antonio Sales numa rede, meio
Arribado, JUREMA, Moacir.


Em derredor a Corja de Padeiros (10)
Lucas Bizarro, Alcindo Bandolim,
Félix Guanabarino e os tais fuleiros
Alegrete e Sarazate Mirim.


Vi Moacir um Livro arremessar (11)
Na direção d’Ioiô Sacramentado.
Os padeiros puseram-se a gritar

“Porque foste empalhado, tens direito
De escangalhar o Livro, sem desvelo”.
Acanalhado e nada contrafeito,
O Bode escancarou selo por selo.

Ao abrir o primeiro, vi sair (12)
Em branca montadura o Padim Ciço.
Era um relampejar e um reluzir,
Quase ceguei perante tanto viço.

Ao romper o segundo, outro cavalo,
Rubro, e outro Cavaleiro, Sanguinário:
Guerra Civil, seu nome, e afugentá-lo
Não é possível, antes do Calvário.

Ao rasgar do terceiro, uma balança
Trazida por Sinistro Cavaleiro:
Em alimária negra, a abastança
Dos campos vai tolhendo, Cutileiro.

No quarto lacre, um Xanto, um Amarelo
Cavalgador da Morte: pela Guerra,
Seca, Fome, implanta seu Flagelo,
Despachando milhares sob a terra.

Aberto o quinto selo, vi romeiros
Do Canindé clamando mais justiça.
Foi-lhes dito esperassem prazenteiros
Pelos demais irmãos mortos em liça.

Seguindo o sexto selo, um terremoto
E a queda de energia da COELCE.
Vi ricaços buscando o ermo, o ignoto,
Borradinhos de medo, erguendo preces.

Então das tribos listas li a lista: (13)
Barroso, Castelão, Centro e Serrinha,
Zé Walter, Pici, Damas, Bela Vista,
Barra, Ancuri, Dendê, Mata Galinha.

Eu vi a Procissão Mãe das Candeias (14)
E os devotos de branco rumo ao Céu:
Humildes convidados para a Ceia
Ao som dos Cantadores de Cordel.

Desfeito o selo sétimo, silêncio
Foi o que sucedeu sibilarmente...
Meu coração suspenso, imóvel, pênsil,
Assuntando o devir, o de-repente...

Vejo Irapuan Lima recebendo (15)
Magote de calouros magistrais.
Atrações culminadas por horrendos
Castigos, cataclismos divinais:

Ouvi Nepomuceno ribombando,
Maestro duma Orquestra de Forró.
Vi chumbo derretido desabando
Em dois terços do Parque do Cocó.

Eleazar regendo O Guarani
No meio duma aldeia tremembé.
E vi desmoronar, cair, ruir
Inteira a Serra de Baturité.

O Quinteto Lupar na Meruoca,
Lauro Maia dançando balanceios.
Vi despencar a Estrela d’Ypioca,
Bêbados em delirium, devaneios.

Vi Humberto Teixeira xamegando
Seu xaxado em Choró e Quixadá.
Cantou xote e maxixe mas chegando
Assum Preto, entrevou-se tudo lá.

A Banda Cabaçal dos Aniceto
Faz baixar com seus pífaros, zabumba
Sobre o Cariri hórridos Insetos;
Crato, Barbalha viram catacumba.

De Ricardo Bezerra ecoa o berro
Ao duetar mais Fagner no Orós.
Gigante, apareceu Cavalo Ferro
Esmagando a Ribeira dos Icós.

No intervalo, Farias Brito, um pé (16)
Postado no mar, outro no sertão.
Sua voz, rojão, fogo e busca-pé,
E o Mundo Interior na destra mão.

Tomei-lhe da direita o Livro e pu-lo
Na boca, a mastigá-lo vorazmente.
Minhas tripas se amargam com o Opúsculo
E assolam-me visões, rapidamente!

Co n t i n u a

n a
p r ó x ima
e d i ç ã o . . .

 

 




Cego Aderaldo: peça em ferro e canção
Obra de Lucio Cleto Paiva -
Lucjo Gaivota
Galeria : Rua Sabino Monte - 3948







Frederico Régis


A senhora demorou
Mas veio sem aviso
Dentro do estrondo
Após o crepúsculo

Vossa excelência
Removeu velhos pedregulhos
Lodosos e crispados
Abrigos de espécies
Consolidadas
E desarranjou tudo
Vidas e caminhos
Numa ordem sísmica


Majestade vossa
Impôs com o movimento
De sombras e órbitas
Uma nova forma de medir
As efemérides e o tempo
Dizendo enfim
Que pouco há a fazer
À massa de refugiados
Que se espalha
Dentro de mim


O poema acima pertence ao livro “Os Países (Campanha Ultramundos)”, já no prelo, e a ser lançado brevemente (quem garante é o autor).


 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

Os Quatro Cavaleiros do Apocalipse (1498), Albrecht Dürer
 
NOTAS:

(1) Para maior compreensão do poema, deve o leitor realizar contínuo cotejamento com o Apocalipse bíblico. O poeta faz as vezes, aqui, de um “joão de meia-tigela”, adaptando ao universo cearense as imagens originais, a começar pela inserção de Antonio Conselheiro (terceira estrofe) no lugar de Jesus Cristo Revelador. (2) Continua o processo de transliteração: substituindo os “sete anjos” das sete Igrejas, sete poetas das sete macro-regiões do Estado. Ao que tudo indica, o primeiro é Fredererico Régis Pereira, autor de Minutas do caos. (3) Caetano Ximenes Aragão. (4) Carlos Gondim. (5) Jader de Carvalho; Dom Maurício, distrito de Quixadá. (6) Francisco Carvalho.

(7) Batista de Lima. (8) Patativa do Assaré. (9) “O eletrônico correio”. Atente-se para o efeito cômico alcançado pela atualização e, até certo ponto, vulgarização das passagens escriturísticas: “Antonio Sales numa rede” substitui a imagem do “Dominador” em seu Trono. “Jurema Moacir”, pseudônimo do autor de Aves de arribação, adotado quando da fundação da Padaria Espiritual, nos idos de 1892. (10) A “Corja de Padeiros”, ao invés da Corte Celeste: Lucas Bizarro/Lívio Teixeira; Alcindo Bandolim/Carlos Vítor; Félix Guanabarino/Adolfo Caminha; [Sátiro] Alegrete/Sabino Batista; Sarazate Mirim/Henrique Jorge. (11) Terrível ironia do poeta (Deus o perdoe): Bode Ioiô é posto onde apareceria Cristo, Cordeiro Imolado.

(12) Começa a série de abertura dos selos. Agora Padre Cícero encarna o Cavaleiro Branco, interpretado comumente como simbolizando o próprio Evangelho. Os demais (inclusive o Cavaleiro da Guerra, que ganha o epíteto de “Guerra Civil”) acompanham bem proximamente as páginas do Livro Sagrado. (13) No lugar das doze tribos de Israel são enumerados doze bairros de Fortaleza, parece que propositadamente todos de periferia. (14) Procissão Mãe das Candeias: ou Procissão da Luz, de Juazeiro do Norte.

(15) Os anjos responsáveis pelas sete trombetas transformam-se em “calouros” do Programa Irapuan Lima (aquele da famigerada musiquinha “Cadê Cacá”). Aos “shows” seguem-se os “castigos divinos”: note-se que tal como em relação aos poetas citados nas estrofes 4-10, também neste momento as macro-regiões cearenses são contempladas. É mantida grande similitude entre os ocasos parodiados das Escrituras e estes: por exemplo, a Estrela de Absinto, metamorfoseada em “Estrela d’Ypioca”, e os cavalos da sexta trombeta (cujas caudas causavam dano), que aqui aparecem resumidos na figura do Cavalo Ferro. (16) “Intervalo”: precedendo o toque da sétima trombeta, o filósofo de São Benedito, Farias Brito, apresenta ao “vidente” seu livro O Mundo Interior. Que produz a sequência de novas alucinações...