Ossos do Ofício



20 Considerações sobre a poesia
para Latif Abrão Jr.




1
Poetas não podem
resolver o mundo
mas podem
(e devem)
resolver o poema.







2
Tramar equilíbrio:
som, sal e sentido.
Tocar todo ritmo,
do brado ao íntimo
sussurro ou sorriso
de raiva ou de alívio.




3
Armar imagens.
Amar miragens.



4
Poeta não diz, faz.
Faz ferver fibras, fogo e fúria.
Mas disfarça o esforço
e faz parecer fácil
o feito de aço.


4
Poeta não sente, calcula.
Não é inocente, procura
cravar-se sempre
como cratera profunda
cavada com o impacto
de um meteoro de aço.
(Sideral, siderúrgico)



5
Poeta faz sentir, não faz sentido.




6
Poetas 
(tristes figuras 
(meticulosas 
como a loucura))
são senão som 
pipocando nos ecos
espéculos de si.


7
“Semp, semp, sem preconceito.”
Poetas são semp antenas na praça.
Captam, polem cada nova palavra.
Polinizam quando a fala se esgarça.
Como abelha ferina o ferrão crava.
Poetas são semp antenas da língua:
Exploram e expandem a mínima mina.
“Semp, semp, sem preconceito.”



8
Poetas cutucam, 
cutilam com a arte,
para incomodar 
os acomodados
de todas as partes,
de todos os lados.




9
Poetas corrompem a juventude
e cospem cicuta na ferida.



10
Poetas mendigam (maldigam)
centavos 
e continuam escravos.



11
Poetas não conquistam ninguém,
inventam amores.


12
Poetas não prestam: 
tretam tanto quanto trepam.


13
Poeta que é poeta
não se vende e nem se presta
à preguiça inata
ao panfleto rimado
ao império da pressa.


14
Poetas têm terríveis descaminhos:
despreparo, desleixo, apelação,
descuido, incúria, frouxos desalinhos,
Impostura pomposa e enganação.
Relaxos que a repulsa à forma expressa.
Verborreia, preconceito, alienação,
Mas, de todos os vícios que professa
a massa de poetas, são os piores
a rima, o panfleto, a preguiça e a pressa.


15
Muita preguiça e pouca perícia,
males de poetas são.



17
Poetas 
não são maiores 
ou menores 
do que a poesia
em que se reproduzem. 


18
Artistas, atletas,
camaradas, poetas
(comuns de dois)
não têm gênero:
só fala generosa
e um desconcertante
deslugar.



19
Aturar
vida de poeta
vale a pena para
construir poemas.
Estudar
vida de poeta
vale apenas para
destruir poemas.



20
Poemas não podem
salvar o mundo
mas podem
(e devem)
salvar poetas.

									   

Frederico Barbosa