Assim não vale e outros poemas




Assim não vale

O gerundiar das ondas
indo e voltando
em oposição ao particípio de viver.

O mar fluindo em tons de
azul, desidentinfando-se com os
estampidos presos à memória.
O mar contando histórias.

Não vale a vida comprimida
Não vale ter os ombros curvados ou
a febre irrompida pelo peso do mundo.


Aquiescer ao particípio da existência
até o gran finale, sem compreender
o gerúndio das marés, não vale.


Assim não vale.








Se eu pudesse


Se eu pudesse, apagaria
teu rastro da internet
e teu signo do zodíaco.
Retirararia tua casa do Google Maps
e teu CEP da lista dos Correios.
Rasgaria os poemas de amor
e escreveria uma ode ao ódio (ao ódio de ti).
Limparia o chão com roupas tuas que ainda guardo.
Calaria o prazer de teus encontros amorosos
e rogaria a Deus que sofresses infortúnioos colossais.

Se eu pudesse, ouve bem, faria muito mais...





Do Lar

Não me mate agora
Preciso arrumar os quartos
passar o uniforme do Juninho

Não me mate agora
Preciso deixar o almoço pronto
regar as bromélias

Não me mate agora
Ainda tenho muito que fazer

Mate-me sim à tardinha
e livre-se das evidências
Não quero estranhos em nossa casa
importunando você.






Do-indo

As cãibras na panturrilha, nosso
segundo coração, conforme afirma
doutor Less, surgiram após tua mensagem.

Ela passou a amar-te perto dos pés.








***Todos os poemas Do livro Assim Não Vale (Arribaçã Editora, 2022).
									   

Noélia Ribeiro