Satori na Laje
Canto da Floresta
(inspirado em tradições Yanomami)
Yanomami thëpë, yarori pë
(Os espíritos da floresta cantam, a terra responde)
O céu desce sobre as folhas verdes,
o rio murmureja segredos desconhecidos.
Xapiri dança entre o fogo e as sombras,
nos olhos da noite, o mundo renasce.
Yanomami thëpë, yarori pë
(Os espíritos da floresta cantam, a terra responde)
***
Florestania
para Ailton Krenak
I
A floresta não é um lugar,
é um corpo que dança.
Cada árvore é um membro,
cada rio, uma veia
em diástole cósmica.
Os humanos são sopros,
tosses roucas no pulmão
desse sistema-mundo.
II
A onça não é um animal,
é uma cidadã da floresta.
Seus direitos foram inscritos
antes dos seres
nas entranhas das taperas.
Ela não precisa de licença
para ser a fera que é
para estar onde está
deveras.
III
O rio não é um recurso,
é um transcurso,
um parente na imensa árvore
genealógica ameríndia.
Ele canta para as pedras,
conta histórias para as raízes,
ensina a cada curva
mesmo quando turva
o sagrado fluxo da vida.
IV
A cobra não é perigosa,
ela é uma anciã.
Ensina a trocar de pele,
a deixar para trás
o que já não serve mais.
A cada etapa nos ensina
com seu cantar-se toda.
V
Os pássaros não são mensageiros,
são a própria mensagem.
Trinam segredos
do vasto mundo sem limites,
onde o céu, a terra, os rios e os mares
vivem sem degredo.
VI
Não somos donos de nada,
somos hóspedes
em uma casa compartilhada.
O planeta nos acolhe,
ele quer ser nosso amigo
mas nos cospe se necessário.