Os corpos se sonham
Amigos, está pobre el suelo, semillas en abundancia debemos
Arrojar, para que se nos den cosechas siquiera modestas
Novalis
E não existe rancor agora que te abraço, silenciosamente somos
um sonho apenas esboçado
pela convulsão da umidade
E a umidade é uma linguagem, a música que sonho.
Sonho a música de minha época
enquanto tentamos nos despir em algum hotel de Lima.
E somos grafites de deuses e gatos nas velhas e enferrujadas
paredes dos cemitérios.
Aqui não crescem mais sementes que as da mesquinharia e da saciedade.
Nas enferrujadas paredes eu compreendi que seguiria tua nervosa
maneira de andar.
Compreendi que, entretanto, sempre caminharia sozinho.
Delicados edifícios onde te encontras agora que sou um
indomável movimento de olhos.
Humildade, me pedem os idiotas.
E ninguém conheceu o amor que te dou.
Te canto, te digo, te repito, te manifesto em mim.
E eu sou um lugar destinado ao canto.
Existem moscas em minha casa e parques próximos.
Existem meninas tranquilas com ossos demasiadamente descarnados.
E canções que nos guiam ao frenesi.
Não temos saída não temos outra época salvo
abraçarmo-nos agora que somos fogo agora que
pulsamos entre as penas do rancor
e as avenidas verdes apenas tilintantes de garoa
são meus olhos buscando tua magreza.
E eu ando, leio Trilce, leio Consejero del Lobo, leio
também meus olhos nessas leituras
E me cuido de todos os Vírus.
E meu cérebro são milhares de sonhos frescos abertos à vida.
E desejo intranquilidade, sonho, delírio, esperança.
E Lima são alguns letreiros com olheiras de anúncios.
Aranhas, cabo e hirsuta linguagem da umidade que esquarteja os lábios.
São épocas de beleza e caos.
Não somos parte do neoliberalismo e nossos sapatos velhos
são também a resposta da época.
Como Rousseau, como Giotto, eu uivo na noite.
Verástegui, Herauld, Vallejo arderam como se tem que arder.
Balas líricas contra a época.
Abrimos livros de Onetti para apagar nosso pessimismo.
Temos camas de paus.
Recobro a lucidez de Novalis e Hegel
é a nêspera que escrupulosamente mordo para beijar-te.
E tudo nos arrasta contra tudo.
E tudo é todos contra todos.
Temos pensamentos que têm suas próprias coerências.
A multidão nos esmaga, nos destroça a subjetividade.
Deixa-me tocar tua mão, deixa-me te dizer algoritmos que
ardam silenciosamente em tua pele.
Martim Adán segue bebendo no Cordano1 enquanto
G. Rose anota uma nova valsa sobre a solidão dos velhos
pátios onde chega o verão
E aqui eu vi beber aos meus chapas e todos
fundamos o Novo Fogo.
Eu sou e serei a crítica.
Eu sou e serei a revolução.
Eu sou e serei o fogo.
Meus versos destroem a milhares de acadêmicos escaldados por
esclarecer
a velocidade e estética retórica das flores.
Não respeito a ninguém. Divago à sombra
dos edifícios. O poema termina.
Os corpos são mornos e se buscam.
Poemas longos em tempos de irascível estética.
Os corpos se multiplicam.
Coerência e bendição: não desejo nada mais que meu canto.
Canto entre manequins e desenho a música de minha época.
Minha mente me ilumina e em minha mente florescem as sementes.
Sou o ímpeto dos mares
A maré do caos da época. Corpos e ruas.
Tudo é incêndio. Nada termina e continuidade
é versar o ímpeto.
A noite sufoca aos corpos perdidos no delírio de renascer.
Necessitamos uma mudança e respiramos o alvoroço
De nosso delicado ser.
Eu com meus 28 anos acuso a este mundo de degradar e alienar
aos outros. Os poetas rebeldes de 1970
acabam de assinar sua participação para trabalhar na Municipalidade de
Lima.
Todos estão sós: a poética que invento
É teu corpo de sonhada coerência. Eu, com 28 anos, meu corpo
preso no concerto de mil atos. Eu,
encarcerado na minha arte: ruas, pontes, o Rímac2
é uma linguagem agitada dentro da tua convulsão. The doors
é um disco ruidoso que soa em tuas artérias. Sou o Deus
da minha arte. E minha força é veemência para
olhos idiotizados pelo tecnicolor da época. Odeio o banal.
Corpos e satélites perseguem o mesmo compasso
do vento. E minha voz brotava agitadamente das ruas
onde abortos e corrupção são asas tenuamente negras ou sujas.
Delinquência e tuberculose.
Não existe aonde ir às duas da tarde.
E meu verso cresceu indômito como crescem as plantas
selvagens no meu bairro.
As estrelas são sementes que observamos bebendo cerveja gelada
desde os calçadões de Lima.
Odeio Lima, amo o céu, teu corpo é um lugar, as ruas,
meus olhos.
Busco respirar desesperadamente preso
ao gozo do meu ser.
Garotas entediadas esperam seus namorados
depois do trânsito e de algum café de dois soles3.
As coisas como são: aqui se rouba e se trafica.
Aqui, Montalbetti e Marco Martos dizem quem é quem na arte.
Bah, saberão que me dói a barriga ao despertar
e que morro de angústia em Lima?
Estes são os anos da viagem.
Golpeio e ataco o plástico. Odeio a hipocrisia. Sou a luz
que brota das sementes.
Minha tese é um arco-íris dentro de ti mesmo.
Estou armando o canto das sementes intensamente sonhadas.
Minha contemplação não é Trilce nem estética de Lezama
explicando o agora / (instante exausto
que destrói todos os gozos) E meu gozo é andar
nestas ruas. Subir ônibus, baixar, andar, anotar
Minha sonhada coerência.
Não existem reinos neste mundo salvo
a nudez que possuímos em certos instantes.
Para que a poesia em tempos de crise?
Para morder teus lábios e sonhar o fogo novo.
Existe uma bala esperando por mim. Os telefones
vazios. Não há aonde ir.
A semente treme em minhas mãos.
Milhares de ônibus não podem parar a música dos meus sonhos.
Somos os sonhadores da épica. Não temos futuro
nem contas bancárias
exceto talvez cores para inventar
as novas Linguagens.
Mas temos arte nada equilibrada para a estupidez generalizada.
Minha mente é uma máquina criando luz.
Tradução: Nuno Gonçalves
Poema : Los cuerpos se sueñan
Do livro de poemas Sementes Cósmicas