Corsário ### Poemas versão inversão - libertino espaço cibernético
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Fragmentos do aturdido #2
espera.
o vento toma de assalto quase tudo agora e
de quatro não consigo ver o mundo.
não é o remorso que me chega, também não é o amor
[nossos erros são piadas que se esvaem com o tempo]
e no cinza abominável sobramos como donzelas
[gazelas que saltam muros]
gatunas e serelepes – mas no contorno das águas
tem luz pequena e rasa, brotando, crescendo
e arde.
cansei do teatro das dores que sempre tu interpretas
e também cansei das flores que teimam em não murchar:
que podemos agora, unicórnio miserável, que criamos
monstros no jardim da casa?
ele torce os dedos, lambe os lábios secos
e nada me diz.
........
(preciso de dentes
e dedos
agora que estou
quase morto quase
morno quase assim
como você)
....................
ALGAS
Náufrago aterrador
Foi como me definiram quando entrei
deixando a porta aberta [um silêncio, cinco fósforos riscados
e uma enorme saudade de mim mesmo]
Náufrago aterrador com o medo numa das mãos e noutra
um susto quase leve, quase nada, quase bunda arrebitada
[guardava uma certa beleza o pavor] e entre
o nariz e a boca
uma cicatriz atroz que lembrava um furacão
Olhos de ventania que destruíam tudo sem nada ver
nem tocar e também os pés que faziam ruídos
quando os passos eram dados
Te amo, quis dizer
Mas não pude sequer respirar
..............................
MÚSICA MODERNA
O mundo parece morto
e o que era festa é nada agora
que não ruído constante
/Na boca da fera, a paisagem
Nas mãos de nós dois
nenhuma bomba
nenhuma explosão
Espero que nos sobre algum
sentimento algum espasmo ou
luxúria – Alguma vontade
que seja forte – O coração pulsando
novamente – Espero – Espero também –
Que o mundo parece morto
parece morto, ó.
“Sentimos muito”,
ele falou
“Sentimos muito e prometemos que /
O mundo explodindo por cima das casas
debaixo das camas, por entre as plantas
inúteis do jardim,
azucrinando os cachorros com os
estampidos ferozes, amedrontando cri-
anças, senhores, velhinhas, implodindo
poços, montanhas, rebanhos inteiros,
assassinando florestas, vigias noturnos,
prostitutas, professoras, colegiais aturdidas,
mendingos, coelhos, igrejas e toda sorte
de gente e de não-gente, de coisa, de
aberração, de santo, profeta, aleijão –
mas nunca as baratas, que somos menores
que elas, e somos
a salvação.
Antes de saudarmos as baratas como
novos santos, novos deuses deste mundo
que criamos – “Ele criou!”, ele disse –
precisamos ir adiante e destruir tudo o que
ainda resta, toda a maldição, toda a peste, toda
a festa, que somos mais filhos que elas e
somos mais Dele que nossos.
E nos odiamos tanto.
...............
AREIA QUENTE
I
Desenho na areia meu nome pro mar comer com vontade
Abraço a lua distante, recito calamidades e deito meu peito no chão
Tudo é deserto
Tudo é fome e também
Tudo é mistério
Dobro os joelhos quadrados, arranco os pêlos da pele e
sinto como se fosse um pedaço de mim fazendo parte da terra e
como se um pedaço de mim pudesse me remover do infinito
que nunca cessa nem de ruir nem de crescer
Tudo é deserto, sim
Tudo é. Tudo é silêncio e também tudo é
miragem.
II
Eis um jazigo onde posso deitar minhas dores
Na boca do rio o sussuro das águas correntes, a barra enloquecida,
as ondas movimentosas e os peixes que, sei, permanecem lá embaixo,
longe de mim e do vento
Penetram no mangue o sal, a areia branca e quente, o vermelho dos
cardumes e o vermelho dos desejos que trazem os pescadores e
também os marinheiros que teimam em aportar na entrada
mais-que-reta desenhada pelas águas na direção
da cidade
Eis um jazigo onde posso deitar minhas dores pra ver se ainda suporto o ir e vir deste mar que não é meu nem dos outros mas que por mim não tem amor, não soluça, não constrói nem desconstrói, não devota nem os peixes nem a morte sorrateira que teima em me vigiar, não me cuida, não me guia, não me sabe, não me vê, decerto já nem me banha,
já nem me lança pro alto, pro mais-alto-que-o-infinito, nem
me pede pra voltar.
Eis o jazigo onde vou me deitar.
III
O gosto da terra é um só:
aquela luta que travamos na calçada da rua guenza e tão louca
como éramos ali, naquele venenoso instante
Teu poema ainda flui (e me mata aos poucos, saiba) e o remédio
nunca veio
Meço o amor pelo sofrimento mantido, pela viuvez do pós-coito,
pelo arrojo do sangue na roupa e pelos pedaços de chão
na cabeça
Você me fez fêmea e mais macho
Fez do meu peito um inferno, fez dos meus punhos dois laços
Fez dos meus olhos um poço, fez do meu rosto um espasmo,
uma ave natimorta, um soldado amedrontado
Fez do desejo u´inimigo,
fez do inimigo um aliado.
Na morte seremos irmãos.
IV
Senti o perfume das horas cessando
o delicado cheiro do fim
Pensei no amor no amadurecimento no aperfeiçoamento das infelicidades
Também pensei nas celebrações infantis na machadada na nuca no cuspe
na cara no tapa na bunda no beijo na boca na canção que era tão boa
como a vida jamais foi / A garganta arde, camarada, preciso d´água.
Tó – e o cantil era o céu da boca aberto
por veias enfileiradas.
Sobramos aqui, eu e tu, e não queríamos isso
Dois fantasmas sem paixão nos olhos ou força nos dedos dos pés.
V
“Estamos distantes agora?”
“De quanta distância precisa você, meu rapaz?” e o mundo era
uma bola que coberta por nuvens solenes secretava os muitos seres
que nele viviam, desde o tempo em que já sabíamos que não sabíamos e assim mesmo
teimávamos em repetir malditas palavras de ordem aqui e ali, como quem não quer nada,
como quem nada deseja, como quem tem peito aberto para o cheiro da fumaça da
cidade que a tudo e a todos, nós sabemos, encendeia
“Te peço amor – Podes dar?” (as nuvens abrindo as pernas, as mãos sem direção
nem caminho) “Mas do que tu falas agora, criatura do demônio?”
“Falo de amor, baixinho, e falo que quero o teu” e os olhos
eram dois ninhos de ave que não se vê.
Roubando o tumulto das águas,
o peito tremeu calado com medo de tantas farpas
Fingiu que nada sentia, virou o perfume em agonia
depois quedou-se, prostrado.
“Ai, o mundo. Tudo tenebroso, tudo.”
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Liberta
Liberes est
“Enquanto seu lobo não vem”
“Enquanto seu lobo não vem”
Per aspera ad astra
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Uirá dos Reis
Endereço Eletrônico : srhiena@hotmail.com
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Fotografias por Dirceu Matos