Corsário ### Poemas versão inversão - libertino espaço cibernético

Fragmentos Do Aturdido #1



D´Stela / Cinco Dedos,Cinco Passos

                       
            para Thaís Monteiro

I

tonto assim torpe assim
ele pensa que atravesso o rio para tocar a margem
lá do outro lado do rio
mas não é verdade: toco a margem que ficou pra trás
quando atravesso como num cavalo o rio que me engole

 

[toque em minha mão / faz assim comigo]

II

porque ontem tive tanto medo e tanta saudade
e só agora sei falar e sei dizer e sei expressar
ontem tive tanta coisa aqui dentro
aqui assim dentro de mim
que não me reconheço

 

só no mar,
só no mar

 

que eu me vejo e que gosto de mim

 

III

 

cravada no peito a vontade de existir
e ser maior que eu e ser maior e ser e ela
sabe como me sinto

 

agora somos amigos e ela tem meu peito
tem meu peito e o cheiro desse gozo dela
que eu fiz ela gozar

 

fiz sim

IV

 

a vertigem

você foi minha vertigem
meu avião desgovernado que caiu no maremoto /
remoto o mar onde você me enfiou e agora nada
agora quem nada sou eu

V

 

precisei de cinco
cinco soldados empestados de piolho
pra saber que nunca amei ninguém

 

nunca amei ninguém e sempre amei você
que é ninguém e que não me bastou naquele sorriso
torto torpe imóvel quase móvel de cozinha aquele
            sorriso que nunca foi a lugar algum

. . . . . . . . . . . . .

. . . . . . . . . . . . .

DA ROSA

 

            A bebida vagabunda me entope de prazer [ela toca os acordes em mim] e me entrego aos céus como a um carrasco [desejo mutilado - humilhação contida -   subserviência tão civilizada] e penso no mar que me leva para longe e para dentro e me tira os pés do chão: sentindo o corpo como quem sente o corpo outro entro no copo de vidro quebrando a libido com gestos sem sentido algum: tenho mãos elásticas que tocam o universo e tenho um corpo pouco que não sabe além de

                                  
                                               seu  umbigo

 

“Meu querido”, ele me diz
apagando o cigarro na mesa:  “Como é chato amar você”.

. . . . . . . . . . . . .

MONUMENTO 27

 

            Engula o que sobrou da comida mergulha tua cara entre os girassóis e deita o peito entre as tangerinas e os melões: As orações que tu buscas na tv elas não te guiarão agora e nem mesmo o sacramento que tu guardas surtirá efeito já: somente as danças movimentosas dos pagãos que gritam à porta [o peso das horas, criatura] te poderão ajudar - que teu leito cheira a morte e tua vida vira lentamente nada definhando arremessada contra o muro de tua casa e os carros da estrada que já foram a tua
ponte entre a vida e o quase nada /

 

Ai, como a cidade fez-se miserável, Pirilampo Querido, e como os mortos são multidões sob os pés que já não se movem, ó

. . . . . . . . . . . . .

INSOMNIA ou
ENQUANTO DORME O CAVAQUINHO

            para Leozinho

I

magnólia.
o barão impressionado com a menina e sua magnólia.
que cor teria qual o cheiro e as pétalas como seriam?
o homem brincou sobre as árvores e eu quis
ser como ele
/não como vocês, bêbados infames, não por seus vexames mas por suas vidas, (ele poderia ter gritado) suas vidas que não servem a não ser para perturbar a minha! - e subia até mais alto, mais além, fazia os galhos tremerem, cerrava os punhos, rangia os dentes e beijava a lua com  delicadeza.

magnólia, magnólia - o barão lembrava.

II

 

Quando penso no Mistério (defuntos sob o travesseiro) e sinto aquela mão em mim, penso entender que / não você não poderia diz que é mentira que o dia não mudou de cor que as flores estão vivas ainda e que o vermelho dos seus olhos é sono luxúria lamento mas nunca esse veneno esse louco encantamento que tira do corpo a vontade de se continuar vivendo.
            Não fique nervosa, criança: se você morre, tenho dito, te amarão. Não treme a boca, os lábios - os dentes, para que ranger? Loucura resolve-se assim (veloz como amor de mãe). Vem cá - não vou - vem cá, garoto imbecil - não posso não vou sou jovem demais não vê ó pai - vem cá que o mundo que te alimentava agora já não te quer mais.
                        Os olhos vermelhos do cara
            (dois encarnados de morte febril),
a boca translúcida, rara (pão na garganta, descendo),
                          as mãos de dedos de estaca.    
e se ninguém te estende a mão (como vai? ainda vivo?) e se não te querem ver (olha-olha/vira-vira) insistir é erro trágico (comédia é que não seria) - e sorri, limpando os dentes. Mas não posso, não entende?, tenho muito por fazer: limpar o jardim da casa chorar em silêncio noturno tatear o espelho quebrado ruminar o que fui no passado consertar meus tênis enxugar a louça mergulhar contra as ondas que invento acenar infeliz aos meus pensamentos / não, não posso, sem jeito! Tenho que reescrever minha vida, reinventar minha alvorada, as anotações inúteis, o caderno amarelo, o azul, aquele grande, o caderno preto, suíço, os papéis avulsos sob a cama, nas gavetas, nas pastas empoeiradas / não posso morrer agora, embora seja boa, a hora.

III

 

Fitando a maravilha nas mãos do homem,
foi assim que me fiz morto como agora estou.

Nada das onças que criei nem nada das paisagens minhas espalhas por aí: tudo é de vocês. Fiquem com tudo, engulam-se a todos, que quero me despedir. “Como e quando?”, meia dúzia de enfermos. “Quando e como, jovem morto?”, mas minha boca não responde.

Agora, onde tudo é nada, agora que o asfalto revela sua angústia estática - olhos de idiota - é justo agora que meu peito clama, mas meu ventre fecha e vejo vocês. É, nada das onças pintadas por mim nem das divagações exatas sobre o mundo sob o muro que é sua alma e sua alma e sua alma e - nada: agora é cruz e espada (estaca fincada no peito): a bruxa não se queimará.

 

ó, avestruzes sibilantes, ó, tatus com mãos de fome,
ó, araras sem cocares, me deixem aqui, assim, morto já,
e levem o que era meu, como sei que vão levar.

IV

 

o amor sucumbe ao homem
e perde a força, rompendo o espaço, ruindo veloz sobre o mar (o vento nada abriga - engole o homem). aquele era o sonho e já não é - agora é nada. nem tempo nem gás nem desejo. o amor agora é aquilo que é o homem: frêmito algoz em boca cinzenta, que pede: me ouve, me ajuda aqui (as almas tentam mas nada elas podem) - segue o dedo, camarada! –
encontra a porta que leva à misericórdia.

trovões esmagam o peito.

sem medo, sem medo:
sem as alucinações quotidianas, por favor; traz a chave da verdade (sê pandora) e traz também a maçã (ele implora - o chão é quente).

silêncio e nuvem: que lugar seria como este nunca e que lugar tão sorrateiro seria melhor que aqui (ergueu-se num rompante e) morte - gritava o goleiro - morte é o que me pedem (seus olhos famintos e meus dedos hostis sob as calças do cara), mas nada eu posso ofertar.

- engole tua vida sozinho, engole teu passado amargo,
tua vida miserável, inútil!, engole tua história vã.

eles (trêmulo, covarde). o que será deles quando o sol se pôr e o que será de nós quando crescer o sol?, pergunta o goleiro. que o povo em coro responde: fecha a cortina, liga a televisão e vê que somos assim, banzos, infelizes, feios, trágicos, perdidos entre os mortos todos e o ocidente (doença eminente).
o goleiro ergue os braços e berra, em explosão: entre o oriente e o ocidente estamos nós, que não somos mais que o amor na mão do homem (ouvem bem) mas que somos mais do que supomos ser (morte morte morte - o coro): otimistas, arrancaremos para fora de nós este opaco das casas e nos abrigaremos entre o fogo e a vidraça / agora calma - única voz suave. descansa teu peito veloz (morte morte morte morte morte) e sê macambúzio mas com mãos de trampolim e pés cintilantes que te levem para longe -

ó, bem longe de ti e de mim.

 

V

os olhos que nada vêem. as mãos que nada tocam. deixa cair a chuva lá fora (a televisão tem vozes e minha cabeça tem vozes também) pois nada acontecerá. treme o peito treme a pupila dilatada “o poema treme” treme lá fora a estrada (goza, rapaz, goza rápido e em silêncio) e com medo prefiro ficar aqui dentro. sem nada fazer.
            amor,
            lá fora poderíamos ter vivido um pouco mais. aqui não: falo bobagens gesticulo para o vento ando de costas rebolo para o espelho e penso em você - filho da puta - em você e meu peito treme (“o poema treme”) e penso em nunca mais dormir ou acordar. as vozes chegam e cercam o corpo - as vozes - as vozes têm cheiro - as vozes - e têm cor - as vozes têm cor.
            eu penso:
                                   quando amei, fui morto.
                        quando amei, fiquei sozinho.
            quando amei, quebrei os ossos.
agora prefiro destruir o ninho.
não não não será mais possível o amor essa coisa que reluz e vira nada vira buraco na estrada bosta-pasto na porta de casa (a voz dele chora em mim e eu me calo) dai-me tua mão invisível, fantasma, e chama-me amor, ralo, casa, coisa rara, rapaz lindo, jóia cara, ametista, noz moscada. chama-me chuva no sertão, rio no deserto, lua em são paulo, homem nu no cairo, profundeza no centrão de fortaleza que é pr'eu me sentir melhor / reluta reluta reluta (me impede da atitude brusca) e grita alto para que eu me cuide e sobreviva - mas me ajuda, fantasma!, põe tua mão em mim e me faz forte! deixa minha cabeça afogar-se em teu ventre e me aqueça enquanto choro, alucinado. pobre diabo, pobre cão eu sou.

 

“amei o tolo e o soldado
amei o índio e o doutor
amei a louça e o fado
nem sei mais o que é amor”.

. . . . . . . . . . . . .

PEDIDO SILENCIOSO /
ENXUGANDO LÁGRIMAS

 

[No escuro,
as mãos tateando o vazio:]

 

- Toque em mim como quem toca uma harpa.

aturdido


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Uirá dos Reis

Endereço Eletrônico : srhiena@hotmail.com
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Desenhos por Marina Barreira