Corsário.Poema lançamento.experimento. versão inversão - libertino espaço cibernético
![]() |
|---|
Éramos tão jovens
e ainda haviam os cheiros que não
conhecíamos
Refiro-me à saudade, às marcas que o corpo
traz, a galeria de mortos, os ases de espada,
os coringas, refiro-me ao que foi torto,
ao que foi duro ou roto e que, se antes nós
não sabíamos, agora sabemos sim
Teus olhos são luvas limpas
com brilho de Estrela d’Alva
que guardo em minha lembrança
fazendo coro com as horas que tivemos lá
na praia da mansidão emblemática
Pescadores armando seus barcos,
crianças banhando seus corpos, mulheres lavando
suas roupas e nós brincando de ir e vir sobre
a areia – como as ondas – e pensando:
Lá do outro lado fica a ilha de gelo e torpor, queres ir?
Ao que o outro respondia: decerto podemos ir:
Chame o pescador amigo e iremos só nós três –
e nisso consistia o jogo:
amar livre o amigo que partirá
a qualquer momento e mais:
amar ao amigo livre que ficará sobre as ondas
entre a areia quente e a ilha de vulcões, na outra
margem do mar
Sozinho não me sentia
pois meu peito estava cheio
tão cheio que bem mais largo do que ele costumava
Agora é que sinto frio, entre muriçocas mórbidas,
sanguessugas de talento, entre os tolos da cidade,
entre o sol e o desalento;
entre o rio e o mar
já não tem barra – tem é dragão da maldade
com gente tola na praça
Ai, que dor essa cidade
Cidade burra e bunita, cidade que não se engole
por saber-se amarga, dura, venenosa, aturdida
Mas lembra como era bom
andar por sobre os bueiros, subindo e descendo
ruas, de lá pra cá, muito longe, entre
Setembro e Dezembro
nas noites
de céu gigante onde se esconde Fortaleza,
a princesinha do Oco, a meretriz do Espasmo,
a rainha do Esgoto, a secretária do Escárnio
– um vulto, um vulto apenas
é o que ela deveria ser
mas nada disso: ela teima, tenta subir e descer –
mas só desce, Fortaleza, porque o bonde da história
virou em outra cidade [o trilho descarrilou] e o que
chegou por aqui foram escombros, lobisomens,
babaus turvos, pernas cuspindo fogo, peitos quei-
mando ácido, bocas engolindo dólares e só e nada,
nada que não seja isso – não que isso seja nada,
claro, afinal isso é a cidade
Teus olhos são como pedras que,
esculpidas em aro, criam arco-íris enormes,
pontes entre mundos diferentes,
entre o que reside aqui,
sob os pés dos delinqüentes
e o outro mundo, aquele, qualquer aquele que
queira – contanto que não seja este;
de cidadinhas vermelhas,
ruinhas que trazem calma, rapazinhos
que lêem livros, que ouvem canções nervosas,
mocinhas que riem pelas ruas catando pedras,
fumando baseados
tudo tão pacificamente leve que ter a visão meio
turva é nada, é coisa alguma, não traz transtorno
nenhum: o mundo está entre o açúcar e o deleite
do bourbon –
me ame,
meu caro, me ame
me deixe ser teu também,
me faz leve e espumante, prazer é o que
nos convém
Teus olhos são como pedras
que se espalham pelo chão, não como erva
daninha, mas como estrelas de mármore que
brotam do barro-asfalto da cidade, que é bonita,
sim-senhor, embora seja u’ordinária trazendo
no peito tudo que não seja o amor
Cidade piranha-suja, cidade veado-horror,
cidade algoz-penetrante, cidade gringo-berrante,
cidade fedor-lestoeste que enoja e que entorpece
e só – além disso sobra o quê?
Além disso sobra nada que me lembre
aqueles dias, que me transforme, me eleve,
contribua; sobra porra nenhuma aqui, nada-nada,
merda-merda, lixo-lixo, sempre e só e ponto
mas
Teus olhos são como pedras
preciosas que guardo em minha lembrança
Refiro-me ao esboço que fizestes de ti mesmo
em carvão e em colorido
Giz de cera, acho, giz e brilho
Éramos tão jovens
e ainda haviam os cheiros que não
conhecíamos
Refiro-me à saudade, às marcas que o corpo
traz, a galeria de mortos, os ases de espada,
os coringas, refiro-me ao que foi torto,
ao que foi duro, ao que foi roto e que, se antes
nós não sabíamos, agora sabemos demais
Uirá dos Reis
email: srhiena@hotmail.com
| versão 1.0 |
|---|