Corsário ### Prosa versão inversão - libertino espaço cibernético
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Plano-Piloto de
Intervenções
Poéticas
para Dominação do Planeta
1. O plano aqui esboçado tem como finalidade a dominação do planeta mediante a Reverberação da Poesia. Interessa-nos que esta ocupe, com suas rosas e espinhos, espaço cada vez maior no mundo.
2. Sugeriremos a seguir uma série de compossíveis ações pelas quais poderão os poetas de plantão contribuir para a realização do fim almejado.
3. (A primeira medida a assumir é a leitura deste panfleto até o fim)
4. Maneira fácil de intervir no real poeticamente se dá pela adoção do velho estratagema de escrita de versos nos versos das cédulas. Acaso estas apresentam a efígie de uma Cecília ou de um Drummond, será facilitado o trabalho, constituindo-se inclusive como metapoesia.
5. Telefonemas para conhecidos e des. Quando da ligação, tanto se pode falar de viva voz como deixar rolando uma gravação. O positivo de se falar no momento é que o recital soará mais caloroso e espontâneo; o negativo é que se a seleção incidir sobre desconhecido ocasionalmente elencado a partir da lista telefônica, fica-se sujeito a ouvir desaforos dos menos poéticos.
6. Poemas em torpedos pelo celular. Este recurso é limitado. Porque não há uma lista telefônica de aparelhos móveis. Pode-se apelar para o acaso, discando-se casualmente: (85) 88854909, por exemplo.
7. Conforme Henry Miller e seus Mezzotints (cf. Plexus), e novamente recorrendo à lista, sejam selecionados alguns endereços aleatórios: para os quais o envio de correspondências supinamente madrigais. Acrescente-se a eleição de um remetente também aleatório: assim o destinatário, curioso de saber os motivos por que recebera a missiva, tratará de entrar em contato com o missivista casualmente escolhido, e teremos aqui possível amizade surgindo. Pelo contrário, possível ainda que se processem mutuamente, o que não deixa de ser, já, uma espécie de relacionamento (não é o litígio uma forma de sizígio?).
8. seguindo o mesmo processo de anonimato, seja aproveitado o estilo das tradicionais “correntes” e enviados para conhecidos ou des, poemas acrescidos de recados extravagantes nos quais fiquem garantidas enormes desgraças (frigidez/impotência sexual e um par de chifres bem aplicado) aos que quebrarem a continuidade do envio, bem como grande premiação (huris/latin lovers e felicidade no amor e no jogo) aos que prosseguirem o movimento. Não há nenhuma má-fé neste expediente, posto que de fato a continuidade da arte poética premiará a todos com uma humanidade menos coisa, e a perda da poesia pelo contrário acarretará a coisidade como inessência humana.
9. Variante da prática acima vem a ser a virtual: seus amigos, caro leitor, costumam enviar-lhe trocentas mensagens eletrônicas na verdade destinadas a longa lista na qual você é apenas um dos inseridos; aproveite pois a listagem e agregue-a à sua própria. Com o tempo serão tantos destinatários que rapidamente se mostrará a eficácia da medida. O incoveniente é que sua caixa-postal poderá logologo estar abarrotada, mas nada que uma limpeza ou aumento da capacidade de armazenamento não resolvam.
10. Ainda virtualmente adentre nas salas de bate-papo e dissemine ali seus versos, sempre endereçando-os para todos. Nada impedirá que se dirija a alguém no reservado, caso sua verve poética cause alguma impressão particular. Os apelidos adotados já devem evocar o sentido lírico: Lord Byron,por exemplo, ou Marcelo Agalopado, se nas salas de Sexo, seção Sadomasoquismo. Expediente mais radical consiste em entrar numa sala de imagens eróticas e enviar fotografias de bardos famosos (claro que em poses adequadas a todas as idades). Deve-se estar preparado para o repúdio geral: ressaltemos que as intervenções tanto têm o interesse de cativar quanto o de... insti/fustigar.
11. Páginas na Rede com palavras atrativas para sítios de busca são importantes. Se quiser muitas visitas, ponha termos como “ninfeta” entre as palavras-chaves (não é tática desonesta, havendo nalguma estrofe dalgum poema da página o emprego do termo: “Meu corpo aleita-se/Sobre a ninfeta:/Que me rejeita”). Insira linques para outras páginas de poesia. Infiltre-se nas comunidades virtuais. Primeiro nas que dizem respeito direto à Causa. Depois e principalmente, nas que não. Seja nestas um aliciador, aplique poesia na veia dos mais recalcitrantes.
12. Poemas por telegrama ou fax. No tocante à estratégia, ver ponto 7.
13. Aproveitando o exemplo das propagandas de Mercearia, enfie folhetos por baixo das portas; para começo de operação, os apartamentos de seu condomínio, as caixas de correspondência de sua rua; depois, o bairro ou (a disposição é sua) cidade.
14. Pode ser aperfeiçoada a propaganda por sob a porta e direcionada para público-alvo específico: dirija-se a uma Biblioteca ou Livraria e “esqueça” em cada livro consultado poemas a serem brevemente encontrados por outros roedores. Recomenda-se que os textos sejam deixados entre as primeiras páginas dos volumes, afinal nunca se sabe até onde vai a paciência, persistência ou estômago do leitor. Para a certeza do encontro, podem ser elencados os livros mais vendidos, os sellers metidos a best.
15. Confecção de cartões de apresentação cuja profissão traga simplesmente o título de Poeta (De Meia-Tigela ou não, fica por conta da consciência ou competência de cada um). Ao invés de endereço ou coisas tais, versinhos.

16. Aproveite a ocasião dos aniversários e datas quejandas para presentear conhecidos com poesia em livro ou avulsa. Os que dela gostam ficarão agradecidos; quanto aos que não, bem feito para eles!
17. Saraus com amigos e amigos de amigos e amigos de amigos de amigos costumam funcionar: principalmente quando à leitura são acrescidos SDaR (*). Pode-se ainda oferecer jantar em que seja servida sopa, de letrinhas. Como sobremesa, biscoitos da sorte, substituindo-se as triviais previsões de sempre por recheio mais inspirado. “Sorte saber ler:/ Estão ao alcance/ Gullar, Baudelaire,/ Guimarães, Cervantes”. (*) Sex, Drugs and Rock’n’roll.
18. Iniciativa definitivamente pessoal é a gravação de poemas no próprio corpo, preferencialmente nas regiões visíveis (para as partes íntimas ficam reservados os versos eróticos). O incômodo da medida é que em se tratando de poemas autorais é preciso abster-se de qualquer revisão; a não ser que a tatoo seja feita com henna, sujeita aos efeitos do tempo.
19. Pintura de poemas em camisetas também é bastante recomendável. Especialmente quando exibidas nas filas de ônibus ou emprego, em que os demais miseráveis terão tempo à vontade para ler o texto às suas costas.
20. Na mesma linha de promoção, mosquitinhos ou santinhos que ao invés de conterem os dizeres “Dentista de Graça” ou “Irmã Jurema Cura Todos Os Males”, apresentariam pequenos poemas. A distribuição a ser efetuada nas esquinas mais movimentadas do centro da cidade pode ficar a cargo do próprio interessado ou de algum moleque mal pago para isso. Pode-se fazer chover bilhetes como fez o grupo Poetasia na década de 80 do século XX.
21. Medida entre a da camisa e a do santinho, é a do homem-sanduíche. Permaneça à vista de todos enfiado entre duas tábuas, cada qual contendo texto poético em substituição ao cardápio do restaurante. Se a coragem não chegar para tanto, é recomendável utilização de dublê ou pelo menos de uma máscara, ficando neste caso completo o vestuário.
22. Seu carro (caso tenha um, claro) pode ser convertido num vistoso poema ambulante. Ilustre-o com dizeres em que a poética substitua o trivial. Se o veículo é uma bicicleta, recomenda-se usode bandeirolas — não com o escudo de seu time, mas — com a efígie do vate de sua preferência. Se você é pedestre, volte aos pontos 18, 19.
23. A pichação de muros é providência de grande alcance. Desagradável no recurso é virem a criar problemas a polícia ou o dono da parede. Fica a indicação de que se pode começar pelo próprio muro.
24. A pichação pode ocorrer em menor escala também nas carteiras dos ônibus ou do colégio. Trocando-se, evidentemente, bobagens como “Fulano é bichano e Beltrano chupa Sicrano”, por metro, ritmo e rimas. O flanelógrafo ou lousa de sua escola, faculdade ou trabalho é obviamente lugar a ser ocupado. Obs.: Não esqueçamos os banheiros, férteis em inscrições escatológicas: João Cabral servirá como uma luva: “Poesia, te escrevia:/ flor! conhecendo/ que és fezes (...)”.
25. Quatro faixas podem ser estendidas ao longo de avenida movimentada, contendo cada qual fragmento de soneto: neste caso, ao final do poema (ou da avenida) poderão os menos afoitos meditar acerca do sentido geral do texto. O conveniente desta adoção é o elemento-surpresa: os transeuntes (motorizados ou não), ao fim reconhecerão a idéia como bem bolada; ou nem a perceberão, também bastante provável.
26. O procedimento da faixa pode ser aplicado à própria residência: no caso de casa, a faixa é posta na fachada; em apertamentos, deve ser pendurada à janela que dá para o pátio. Se nenhuma janela der para o pátio, se todas se depararem com paredes, torçamos para que além de ouvidos, também estas tenham olhos bem abertos.
27. Outdoors são obviamente recurso caro. Mas para os de menor recurso existe também a pichação nos outdoors. Ver o ponto 23.
28. Outro expediente dispendioso é o aluguel de carro de som, substituindo-se anúncios de produtos e empresas pela récita de autores consagrados (ou anônimos quais você, adorado leitor). O segundo incoveniente da empreitada é que todos a detestam, correndo-se o risco de tornar poluição sonora o que foi imaginado como combate a esta.
29. Esqueça as Rádios Usurárias: anúncios em Rádios Comerciais costumam ser terrivelmente onerosos. Procure as Comunitárias, Universitárias ou Piratas: assim como você, poeta leitor, não costumam ter nenhum patrocínio. Divulgue nelas seu reclame. Reclame.
30. Viável o aproveitamento de espaços destinados originariamente à propaganda de aluguel, compra e venda: os classificados dos jornais, por exemplo, são excelentes para a publicação de poemas sem classificação.
POEMA:
“Não vendo ou troco:/ Porque é de graça:/ Não ache graça,/ Q’inda dou o troco”. ) CONTATOS: (85) 32874909
31. Esquadrilhas da fumaça podem escrever no céu algum versinho, ou carregar pela cidade faixa com uma trova. Este expediente tem a vantagem do longo alcance numérico e do exotismo, mas a desvantagem do preço a pagar, igualmente exótico e de longo alcance numérico.
32. Se quiser dispensar o avião, envie sinais de fumaça à moda antiga. O conveniente é que poderão ser emitidos de seu próprio quintal e chegarão longe em dia de vento. O incoveniente é que (quase) ninguém os compreenderá, correndo-se ainda o risco de ver chegados, afogueados, os bombeiros.
33. O velho artifício da mensagem na garrafa atirada ao mar pode também voltar a ser adotado: seu pedido de socorro gritado em versos.

Mas urge não abusar do recurso, dado seu recente caráter profundamente anti-ecológico.
34. Conforme José de Anchieta aproveite um dia de praia para escrever versos na areia. Se tal operação tem o incoveniente da curta duração, o bronzeado pelo menos estará garantido (embora também efêmero).
35. Ensine Camões ao seu ou ao papagaio do vizinho (supondo haver um vizinho ou papagaio). O “loro” há de repetir os versos ao longo do dia, conforme lhe dê na telha. O risco da empreitada é que o bicho pode intercalar por conta própria entre uma lírica e outra alguma expressão menos ortodoxa, e o ouvinte já não saberá se se trata de Camões ou de Bocage.
36. Para os mais esotéricos, a telepatia não deixa de ser alternativa. Concentre-se num versículo como em pequeno mantra e procure expandi-lo para a mente de outrem. Nham-nham-nham, ooomm...
37. A radicalidade das intervenções estende-se inclusive aos momentos terminais, amável leitor; já que a morte — dizem — é a única certeza, providencie desde já um testamento em versos (algo no gênero Testamento de Judas). Você obrigará os ouvintes ávidos de bens a suportar por minutos o mais precioso destes (no seu julgamento, amigo), sua poesia.
38. Ainda nessa linha de conduta, não esqueça a inscrição da lápide. Alguns precavidos escreveram em vida o epitáfio, uma vez nem todos poderem seguir o exemplo de Brás Cubas. Há referência primorosa para este item, aquela do túmulo de Quintino Cunha (Plano 3, Rua XV, do Cemitério São João Batista, Fortaleza-CE): “O Padre Eterno, segundo/ refere a História Sagrada,/ Tirou o mundo do nada,/ E eu nada tirei do mundo”.
39. (A última medida a sugerir, é o envio deste texto pra interessados ou des. Outros do mesmo feitio são benvindos. As dicas de como os passar adiante estão aí)
40. Enfim, se mesmo após tantas intervenções, meu caro, a Poesia não tiver
dominado o mundo, é que é chegada novamente
a hora de Pegar
em armas.
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Poeta de Meia Tigela
Nascido no século passado, mais pra cá que pra lá, em Fortaleza de Nossa Senhora da Assunção; mesmo dia e mês (mês do cachorro doido) que Leon Tolstoi, Goethe-Werther e Santo Agostinho (se bem que deste não faça tanta questão de lembrar). Filho de pai soldado e de mãe enfermeira, vem talvez daí a propensão irrefreável para bater e depois alisar.
Crescido magro e cabisbaixo, um ponto de interrogação. Nenhuma crença em Deus nem nos homens, mas uma fezinha nos animais (principalmente nos do Jogo do Bicho, aos sábados). Se assim no tocante à fauna, no que diz respeito à flora, prefere a intestinal.
Admiração por Pessanha e Pessoa, Poe: em suma, os alcoólatras da língua do P. E uma convicção profunda de ser a mais recente encarnação de Dostoievski: para comprovação da tese, estão aí as dívidas, o vício em jogo e o delírio semi-epiléptico.
Na própria obra poética a mais profunda dentre as obsessões: noutras palavras, a mais refinada maneira de ter a si mesmo como objeto de adoração.
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Fotografia Glauco Leandro
Edição
Dirceu Matos