Corsário ### Prosa versão inversão - libertino espaço cibernético

paisagem dos círculos mundanos

         Gostaria de pintar em uma tela branca a sincera confusão dos tempos dançando em volta de meu corpo. Iniciaria pelas caravelas incendiando no mar, o fogo subindo no corpo da madeira, lambendo o sal acumulado e reduzindo à cinzas os sonhos e as possibilidades de voltar. À frente os espigões de arranha-céus com suas varandas iluminadas, enraizando-se nas areias da praia, por sob o asfalto, em um silêncio tenebroso. Em linhas finas, traçaria uma ampulheta ou uma gigantesca aranha, dando volta em torno de si mesma, atarantada, enlouquecida, fora de ritmo. Um rio de águas vermelhas seria o céu e na terra a serpente eroticamente enrodilhada nas peles macias da Virgem. Um homem de costas para o mundo, uma mulher morta ao seu lado. Gostaria de encontrar uma maneira de fazer sua imagem gritar apesar de morta, seus cabelos seguem crescendo. Ao fundo uma cidade se desmanchando ao som do vento que sopra no sertão. Não haveria lua e seria minha primeira pintura sem cavalos, sem poeira e sem sangue. Não haveria mais amor nem desejos desesperados. Seria uma serena tentativa de escapar à roda-viva. Ir além. Atingir a terceira margem do rio. Seria como um sonho, ao despertar, recordaria meu olhar perdido no quadro e choraria por saber que amanhã choverá novamente águas antigas.


 
___________________________________________________________ Nuno Gonçaves- Poeta e Professor
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Fotografia por Mardônio França