Corsário ### Colunas versão inversão - libertino espaço cibernético


* Banquete espinhoso voante

coluna x diálogos x inversões x comida.de.pele

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Primeiro Caminho quando começamos a ver os peixes

pra ondes os ventos me levaram - é fim de tarde e todos guardaram seus presentes - andam ferozmente - no trânsito - se apertando - se partando e a música do dia cantarola pelas estradas - a estrada corre - e não adianta correr...adianta? adianta segurar no muro - ultrapassá-lo se vai voltar - se vai ser jogado na fogueira?

deixar se perpetuar estátua de sal? - não.

adianta sempre - vai adiantar - me adiante o troco e o beijo e ferozmente avance sobre os dias - eles estão lá - e sempre somos a resposta de tudo e sempre e sempre - o tempo é nosso irmão -e nossa mãe - a mãe canta o sino da morte e do gozo - ela inflama e é isso - corte - força e revolta.

os dias não ficam - os filhos não ficam - as sementes não derão furtos- frutos - e o bicho imaturo - cru - cruado está lá - dando postas para todos - não esqueça - venha ver a receita de cangulo: bicho feroz ensinado pelos brasis-criados, ameríndios - os que enfretaram a morte e a cruz -e conseguiram - por isso consiguiremos

consiguiremos levatar hastes
erguer santos
volver a miséria
dar cor aos olhos
erguer matas
avançar em cachoeiras

consiguiremos engraçar a mãe-d'água - fazer amor - rezar para nosso mato - pro sol e pra toda terra-mãe-

preciso e precioso - e ardiloso

MaíraMour



De manhã e o poeta se errante pelas ruas
para Pau D’arco – e a chave

“ (..) Aos os olhos dos recém-chegado, aquela indiada louçã, de encher os olhos só pelo prazer de vê-los, aos homens e às mulheres, com seus corpos em flor, tinham um defeito capital: eram vadios, vivendo uma vida inútil e sem prestança. Que é que produziam? Nada. Que é que amealhavam? Nada. Viviam suas fúteis vidas fartas, como se neste mundo só lhes coubesse viver.

 

Aos olhos dos índios, os oriundos do mar oceano pareciam aflitos demais. Por que afanavam tanto em seus fazimentos? Por que acumulavam tudo, gostando mais de tomar e reter do que de dar, intercambiar? Sua sofreguidão seria inverossímil se não fosse tão visível no empenho de juntar toras de pau vermelho, como se estivessem condenados, para sobreviver, a alcançá-las e embarcá-las incansavelmente? Temeriam eles, acaso, que as florestas fossem acabar e, com elas, as aves e as caças? Que os rios e o mar fossem secar secar, matando os peixes todos?”
Darcy Ribeiro

As ruas estão molhadas das lágrimas dos fantoches divinos – os querubins que passaram a noite fazendo aquela festa – aquela brincadeira – todas as ninfas – todos os linfas – todos os heróis – a mestiçada toda – os caboclos e os cafuzos como dissera – por que Adauto está bebendo todos os dias? – isso me fez muito triste por muitas vidas.

irei encontrá-lo novamente e farei da felicidade dele – minha felicidade – compartilhar com os pássaros toda essa beleza que representa no vôo – na vida – e na vida que nos apossamos dela – sempre e – e sempre – e quando queremos morrer – isso não adianta – seguimos a vida criando raízes – movimento de vida – sempre movimentos – sempre momento de ver os dias claros – e os dias das madrugadas – o sol nascendo e essa claridade – essa escuridão que se refaz na alma – e faz parte dela – e faz parte do riso – que não percebemos e corremos (fugimos) com o medo –

mas Adauto – não resolve – não adianta Adauto entregar-se – ameríndios e caboclinhos – sobrevivente do hecatombe – vós sois os escolhidos – os sobreviventes da matança dos vírus dos jesuítas – do terror dos bandeirantes – o terror das naus – do porão do escorbuto – e fez essa mestiçagem forte – dura – terrível – e feliz – e valente – e guerreira – e poeta – mas por toda melancólica – invasões de erros e de desvarios – e de altivez (o cachorro pé-duro é o brasileiro) - campos de concentração – não se entrega filho que é pai

– não se entrega filho que é pai – não se entrega filho que é pai – não se entrega filho que é pai – não se entrega filho que é pai – não se entrega filho que é pai – não se entrega filho que é pai – não se entrega filho que é pai – não se entrega filho que é pai

a cachaça de todos os dias – de longe não parece os chãs de nossos pajés – de nossa bebida – de nossas ervas
Adauto segue o timo. Levanta essa fronte e arma a sua rede.

(texto retirado do Livro 'o livro das tesouras encantadas – e o punhal' de M.França)

Corsário.Colunas versão 2.0