Corsário ### Cartas versão inversão - libertino espaço cibernético

O velho em silêncio
                         
Ele estava sentado ali havia décadas. Envelhecido, o menino mantinha sobre a cabeça um jornal velho e entre as rugas dos dedos, uma bengala que usava de vez em quando para espantar os pássaros que vinham fazer festa sob seus pés a comer seus dentes que, amarelados, caíam, um por um, ano após ano. Amarelado o jornal era sempre o mesmo.  

Debochava dele um grupo de adolescentes que vez por outra pairava ali na praça evitando as aulas da tarde. Bebiam e faziam graça com o velho que observava o horizonte, nada mais. Silenciava porque sabia: não havia mais quem fosse capaz de ouvir. 

Nada falava mas havia uma hora, um momento, logo depois que os alunos deixavam o recinto porque já era hora, havia uma hora, um momento em que ele recitava um longo poema, como uma profecia, como uma premonição, como uma prece. Como se lançasse sobre todos os outros uma maldição inominável. A poesia é uma maldição!  

Não se alimentava. Alimentava-se de luz, dizia-se. Misteriosamente não morria. Misteriosamente sequer levantava-se para beber mesmo um copo d’água ou para ir ao banheiro. Sozinho e envelhecido, o menino esperava com os olhos fixos no mar à frente, com sua bengala e seu guarda-chuva-chapéu-de-papel. Dentro dos bolsos, em papéis dobrados em quatro partes, folhas de antigos jornais. 

A cidade continuava. Ele perdera o bonde, certa vez. E basta perder-se uma só vez, uma única vez e veremos o que acontece. Perdera o ponto e deixou pra descer anos depois, quando a condução desse meia-volta e fizesse o retorno, mas a estrada em linha reta é infinita. 

Nos primeiros anos, dirigiam-lhe a palavra pra saber se precisava de ajuda ou pra fazer-lhe perguntas a respeito de como se sentia ou a respeito do que pensava. Ao que ele apenas dirigia um contorcer de lábios inferiores para indicar “nada”, sem pronunciar palavra e sem tirar os olhos do ponto que escolhera pra fixar-se. E cultivava uma fidelidade incorruptível ao seu silêncio. Inúteis tentativas de desconcentrá-lo.  Ele se garantia firme e teso. Em décadas não se via o velho menino desviar sua atenção. Para nada. Chuva, raio, trovão ou sexo. Conservava uma paixão e um amor à sua fiel companheira: o último estágio, o estágio mais alto da verdade, a beleza; e o belo é silêncio. 

Ali, sentado e gentil, o velho menino observa, aprecia e aprende, que é o que viemos cá fazer neste mundo. 

A única vez em que se viu a tal excêntrica figura pestanejar foi quando lhe interrogaram os policiais sobre sua estadia por ali. Talvez pensassem se tratar de um maloqueiro a espera de “cliente”. Guardas civis encarregados de tirar das praças a miséria que as enfeia quiseram arrancar-lhe um olhar sequer. Mas o velho menino se mantinha indiferente. Como se recusasse a responder, então bateram-lhe na cara, nos ombros e nas canelas. Com tanta violência que o menino veio parar no chão. Mas ele evoluíra. Pacientemente, se erguia o velho e fazia caretas de dor; mas continha-se para não revidar. Era visível sua paciência forçada, sua vontade de desviar o olhar, voltar-se contra o agressor, mas calava-se. Tornaram a lhe bater e ele tornou a levantar-se indiferente. Uma outra vez , o velho menino sangrava já, e uma outra vez ele se erguia e tornava a sentar. E assim foi durante dias. E o velho levantou durante anos. 

Depois disso não mais. O velho menino se manteve onde estava ainda por séculos. Como uma velha árvore enraizada a aprender e a respirar.




Léo Mackellene
é poeta e escritor, gosta de ler revistinhas da Mônica no banheiro e de dormir só de camiseta regata.

Publicou recentemente " O livro das sombras ou o livro dos mais pequenos silêncios".