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veleidades literárias

O que é escrever?

 

A meio caminhar de minha vida
fui me encontrar numa selva escura
estava a reta minha via perdida

Dante Alighieri, O Inferno

 

Você pode encontrar infinitas respostas para tentar (apenas tentar) definir o que é “Escrever”. Pelo menos uma delas estará ligada ao frisson, ao sabor, ao amor que se pode ter às palavras quando se escreve. Esse amor é o amor dos poetas, dos escritores, daqueles que quase inexplicavelmente se envolvem com a palavra e se tornam dependentes dela, ao ponto de não conseguirem conceber a própria vida sem ela. O sentido, a atmosfera da palavra, passa a ser o ar que o poeta respira. Os Poetas aprendem a lidar com ela e são seus senhores. Paradoxalmente, se tornam seus amantes soturnos e são dela seus escravos.

Para estes, escrever não significa apenas jogar palavras no papel; não diz respeito a uma mera técnica que pode ser desenvolvida em qualquer indivíduo que assim desejar; não se vincula ao ato simples de copiar um texto ou mesmo de criar um texto aproveitando algumas idéias postas em debate; não é a representação gráfica da fala.

Para ele, o ato de escrever se reveste de toda uma aura de luz e de sabor, de paixão e de desejo. Aqui, o escritor é um alquimista. Tenta recriar o mundo. Quer refazer a vida. Quer reformar tudo. Entende que a palavra se desgasta nos dias de hoje e deseja ressignificar os discursos, o mundo, a própria palavra. Aqui, o poeta, o escritor, o artista da palavra em geral sente a necessidade visceral de escrever, como quem tem fome, como quem tem sede, como quem tem ânsia de existir. Para aquele que não é apaixonado pela palavra, tal paixão é estranha, esdrúxula, feia; é loucura. Mas o apaixonado pela palavra, quando uma palavrinha lhe salta ao juízo, mesmo em meio à noite e a todos os assombros que ela esconde, mesmo ali, o poeta apaixonado se rende e só descansa quando encontra a palavra exata, a palavra certa, suficiente para dizer de sua alma, de seu querer, como o segredo de uma chave.

O poeta busca a palavra como um garimpeiro, como um cientista procura a fórmula. Mas o poeta, o verdadeiro poeta, não quer o belo; quer a beleza da fórmula criada para curar a vida. Quer a beleza, o mais alto estágio da verdade.

Certa vez, um poeta escreveu

O que eu procuro com minha arte

não é o belo

nem ela é o próprio belo

o que eu procuro

é a cura

O poeta escreve como alguém que respira. O poeta escreve como alguém que sangra. “Quem escreve sobre sangue e não está sangrando é um covarde” dizia Fernando Sabino. Sem a palavra, o poeta inexiste.

Essa paixão não pode ser ensinada. Não há como ensinar o amor à palavra. Essa paixão, esse amor se constroem espontaneamente, por anos e às vezes por décadas, por toda uma vida! É resultado de uma relação íntima entre o ser e a sua dimensão enquanto palavra. É o fruto do ventre imaculado da solidão, porque escrever é o ato de maior solidão que pode existir. Na palavra, o texto é você e você está sozinho, como uma casa abandonada habitada por espíritos e fantasmas.

O amor da palavra só pode ser construído voluntariamente. Do contrário, seria um estupro. Querer ensinar o amor à poesia é violá-la, destruí-la, dilacerá-la. O amor à palavra não pode ser ensinado, só aprendido.

Por isso é que aqui não teremos essa pretensão. Só o tempo pode ensinar o amor. Aqui, o que tentaremos fazer é simplesmente demonstrar o amor. Incitar o desejo pela palavra. Instigar a luxúria pelo amor à palavra. Mostrar a sensualidade da sua voz, das suas formas. Exibir o escrever como corpos que se entrelaçam no papel. Mostrar que o poeta não escreve, ele trepa com as palavras. E cada texto como uma cena do mais puro amor gerado “na ciência do gozo venéreo”, como diria Aluísio Azevedo.

Conhecemos o amor em suas mais diversas formas e sabemos de seu perigo quando desmesurado, quando não é equilibrado. Há tempos tentaram ensinar o amor. Ei-lo: o amor à nação levando o povo americano à beira de uma esquizofrenia coletiva que lhe isolará do resto do mundo; o amor à raça e à cultura gerando campos e campos de concentração como os de Hitler ou os construídos na década de 30 em Fortaleza para conter o flagelados que invadiam a cidade que se aformoseava; o amor a um time e torcedores transtornados em assassinos nos dias de campeonato; à mulher ou ao homem amados gerando todos esses crimes passionais dos quais somos testemunhas estarrecidas. Sim, conhecemos o amor, mas ele não é nada sem o Respeito. Só existe algo maior que o próprio amor, o respeito.

Como forma de equilibrar o amor pela palavra, é preciso respeitá-la. E como se pode fazer isso? Conhecendo-a. O respeito se constrói à medida que conhecemos aquilo que se tem de respeitar. A cada novo passo adentro do caminho, cada horizonte alcançado em nossa caminhada, cada nova zona de escuridão, um novo segredo é revelado.

Pelo caminho tortuoso da escrita e da vida, os poetas serão nossos guias.


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Léo Mackellene
é poeta e escritor, gosta de ler revistinhas da Mônica no banheiro e de dormir só de camiseta regata. Escreve semanalmente a coluna veleidades literárias na corsário.

Publicou recentemente " O livro das sombras ou o livro dos mais pequenos silêncios".

Tem um belo blog: olivrodosmaispequenossilencios.blogspot.com

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Fotografia por Dirceu Matos