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veleidades literárias

Do meu amor

Crescer não significa nada além de aprender a fumar e a tomar xícaras e xícaras de café muitas vezes ao dia. Me despi de tudo o que amara, como sugerira um amigo, para ver se amava mesmo tudo aquilo, e o máximo que consegui foi me sentir vazio e não amar mais nada. Mais ninguém. Mas sei, ainda posso amar.

Amo. Sim, eu sei. Posso sentir o amor em mim. Posso senti-lo caminhar pelo meu sangue, pelo meu sêmem, minha alma liquefeita, meu éden. Posso sentir seu canto noturno arranhando os lugares por onde passa veloz. O corpo é escuro. O corpo é um túnel escuro. Mas amo sim, eu sei. Posso ouvir a voz daquilo que ama num sopro. Posso sentir sua respiração se expandindo com brandura. Ele é triste. Está triste.

Amo. Mas amo o meu amor, será? Será essa a manifestação mais pura e dura de um egoísmo que até mesmo eu desconhecia? Me contento com o fato de saber que fora de mim é perigoso demais pra um amor assim andar sozinho. O amor que eu produzi é meu filho, eu o amo. Ele é belo, singelo, é puro, é casto, é insano.

Amo todos... e não consigo amar nenhum, porque não odeio. Só aquele que odeia é capaz de amar. Um ser desprovido de paixões nada sente. Um ser desprovido de paixões não é humano. É um deus... ou um pobre diabo!

Amo. Sim, eu sei. Posso ouvir seus trôpegos passos. Bêbado, o amor cambaleia dentro de mim. Desaba aos pés daquilo que não consegue enxergar: o que ele ama. E o que ele ama? Ele ama o que não vê, o que não consegue ver. Ama o invisível, o infinito, o impossível. O que ele ama não cabe em si. O que ele ama está além daquilo que ele pode ter, além daquilo que ele pode ser, além daquilo que ele pode amar. Porque é de carne, efêmera carne. Lá, além da linha do horizonte, além daquilo que ele pode dizer. O que ele ama ainda não tem nome. O que ele ama é indizível. Ele se dilui na vastidão daquilo que ama. Se dispersa na imensidão daquilo que ele ama.

Sentindo. Reparou já que a palavra sentido é anagrama de destino? Como se fossem um o reverso ou complemento do outro. Destino. Destino é o sentido que damos aos caminhos. E esse amor é triste. E caminha calmo. Acende um cigarro pra morrer um pouco mais. E vai... segue, cego, sem rumo, sem leme, visitando todos os rumos, sem chegar a coisa alguma, na distância intransponível de não se ter pra onde ir.


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Léo Mackellene
é poeta e escritor, gosta de ler revistinhas da Mônica no banheiro e de dormir só de camiseta regata. Escreve semanalmente a coluna veleidades literárias na corsário.

Publicou recentemente " O livro das sombras ou o livro dos mais pequenos silêncios".

Tem um belo blog: olivrodosmaispequenossilencios.blogspot.com

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Fotografia por Mardônio França