Corsário ### Prosa versão inversão - libertino espaço cibernético
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detalhe
Desde que nascemos, minúsculas bolhas recobrem nossa pele, presas entre os pêlos microscópicos que saem dos poros. Só quem for capaz de chegar bem perto da pele do outro; só quem conseguir ficar olhando fixamente para a pele do outro, por anos, é que consegue vê-las. Afora isso, só os que amam muito conseguem enxergá-las em condições adversas.
É o olhar do outro, no entanto, quem mantém ali, sob pêlos, as bolhas.
Às vezes, ano após ano, dia após dia, enquanto desviamos nosso olhar para o outro lado, as bolhas vão deixando de existir, espalhando sobre nossa face de olhos quase sempre fechados os respingos do que antes fora uma bolha. Agora, nem existe. Até que o corpo todo fique nu delas, sem a proteção amortecedora das bolhas.
Desde que nascemos, minúsculas bolhas vestem nossa pele, presas aos pêlos microscópicos do que temos vivido. E cada bolha que estoura é uma delicadeza que dispensamos. Até que o corpo todo desapareça entre delicadezas atrofiadas, e termine seus dias totalmente embrutecido, sem a proteção amortecedora das bolhas.
Sob os pêlos da pele, cada bolha é um óvulo esperando. E é o olhar do outro que nos fecunda de bolhas.
Quando uma bolha se desprende, ela atinge a superfície, respira, sente alívio e morre. Exausta da espera. É o olhar do outro que nos fecunda de novo. É o olhar do outro que nos devolve a estabilidade da bolha. É o olhar do outro o que garante a existência das bolhas, a re-existência daquilo que fomos, a permanência sutil e tenebrosa do ovo.
A missão de cada um, é estourar as bolhas do outro. Tocando e tocando levemente, até que não reste nenhuma. Mas que elas deixem de existir não por não serem fecundadas, mas porque tenham sido, todas, uma por uma, violadas, desvirginadas, destruídas.
para Simone Rodrigues Passos, os meus dias.
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Léo Mackellene é poeta e escritor, gosta de ler revistinhas da Mônica no banheiro e de dormir só de camiseta regata. Publicou recentemente " O livro das sombras ou o livro dos mais pequenos silêncios".
Tem um belo blog: olivrodosmaispequenossilencios.blogspot.com
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Fotografia por Dirceu Matos