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* >>As Moscas - Henrique Araújo

As moscas

Fossem duas ou três, ou mesmo uma dezena, e Afonso não teria desviado a atenção do jarro com pardais de porcelana que ficava no centro da mesa de jantar, nem mesmo esquecido, por um segundo que fosse, o rosto de Tatiana. O que viu, porém, fez com que deixasse de lado a ambos. Sobre o prato sujo de comida abandonado no lado oposto ao de Afonso na mesa, uma centena – quem sabe duas – de drosófilas.

Afonso acordara tarde naquele dia, comportamento que se tornaria padrão ao longo de todo o período de férias. Afinal, sua mãe não tinha desculpas para não permitir que ficasse até depois das 23 horas assistindo a filmes de terror e suspense. Logo após ter desgrudado os olhos e se espreguiçado demoradamente, acreditou, felicidade e tristeza batidas na mesma receita, ter esquecido Tatiana, colega de sala na sexta série por quem era apaixonado desde o primeiro dia de aula. A impressão desfez-se após abrir a gaveta do criado-mudo e dar de cara com aquela embalagem de bombom que Tatiana lhe mandara por meio de uma amiga comum.

Não obstante as paixonites, Afonso era um garoto “Comandos em Ação”. Um mundo a ser explorado: o quintal de sua casa. Jamais se cansava. Vovô plantara muitas árvores no quintal. Hoje era velho demais, sobretudo após a morte de vovó, mas um dia fora muito corajoso. E plantador de árvores: bananeiras, mangueiras, abacateiros, etc.

“Um dia serei como vovô: velho”, constatou Afonso depois de algum esforço reflexivo.

Na hora do almoço, depois de afastar a porção de arroz para a direita, trazê-la de volta para a esquerda e, por fim, abrir uma cratera no montinho de feijão intacto, Afonso empurrou o prato de comida para a frente, num movimento claro de rejeição. A mãe, até então entretida unicamente com a louça suja, fingiu não ter visto o amuo do filho. Mesmo após ter implicado com a comida, o menino permaneceu sentado na cadeira. Diante do jarro de pardais, riscava o fundo do prato sujo de caldo de feijão com a ponta da faca que, minutos antes, servira para testar a elasticidade do bife que o seu pai trouxera da feira na última terça. Inscritas em um coração desenhado no fundo do prato Duralex, as iniciais A e T causavam estranheza em Afonso. Não que fosse crédulo ao ponto de querer mistificar algumas letras inscritas dentro de um montinho de feijão. Apenas... sentia-se diferente ao olhar para elas. Eram as primeiras letras dos nomes de Afonso e Tatiana. Ao perceber a proximidade da mãe, que esticara o braço para apanhar um copo sujo, tratou de apagar o desenho com as iniciais.

Ao pousar o olhar novamente sobre o jarrinho, Afonso tomou um baita susto. Definitivamente, algo atraíra a sua atenção, e não fora a brincadeira de jogar caroços de feijão aos pardais.

Sobre o prato esquecido do primo, uma nuvem cinza movia-se aleatoriamente. A princípio, achou que fosse alguma espécie de gás sendo desprendido da comida que, rapidamente, estragava-se no prato. Depois, percebeu tratar-se de moscas, dessas que infestam a casa de todo mundo e infernizam quando tentamos dormir à tarde.

Para espanto de Afonso, em poucos minutos a nuvem tomou proporções assustadoras, atingindo o tamanho exato de uma bola de futebol de campo. Soube precisar a dimensão da nuvem porque ganhara recentemente uma bola. Uma centena de drosófilas sobrevoava o prato sujo de comida! “Talvez mais que isso”, fantasiou sozinho, divertindo-se com o pensamento grudado nas asas daquela que parecia ser a líder de todas. Afinal, elas deviam ter uma líder que certamente as guiara até aqui, depois de muito analisarem a situação, os riscos implicados na operação de guerra.

Após muito admirar-se com as moscas, deu-se o inusitado. O olhar estirava-se na direção da nuvem chovendo moscas no prato de comida. Um pratinho raso, cheio de moscas. Nojentas? Não era pra tanto. Afonso queria comê-las junto com as colheres de arroz e feijão. Melhor que o bife enervado, feijão, farofa de toucinho e suco de laranja.

“Olha a comida, Afonso!”, berrou a mãe, sem despertar do sono, enquanto esfregava com uma esponja embebida em sabão líquido o fogão Esmaltec novinho. Afonso tinha um primo que trabalhava na Esmaltec, o orgulho da família. Esmaltec não era fábrica de esmaltes, como tinha pensado no começo, até alguém explicar que o primo trabalhava na fábrica de fogões e ganhava mais do que o pai de Afonso. Neste dia chorou sozinho abraçado ao fogão.

Uma nuvem espraiada. Não – concentrada mais que os prótons e nêutrons do núcleo de um átomo. “Eram as moscas partículas indivisíveis?”, perguntou-se, enquanto a mãe lhe trazia um outro copo de suco de laranja bem gelado. Bebeu o suco todinho do jeito que a mãe gostava de ver. Acaso tivesse prestado atenção, a mãe rapidamente teria esquecido o presente que o pai lhe dera ainda naquela manhã. Uma coisa bonita de se ver, o presente: ouvira atrás da porta.

Bonito de se ouvir. A nuvem, como se não bastasse, falava. Sim, não houve espanto da parte de Afonso, garoto que trepava em árvores com tanta facilidade e amarrava bombas ordinárias aos rabos dos bichanos da vizinhança. Um símio verdadeiro e grotescamente projetado para matar. Quanto às moscas, apenas diversão.

A mãe entretida com os pratos sujos do almoço. Um mundo só dela, o dos pratos sujos de gordura e restos de arroz e feijão. Lá, demorava-se o quanto quisesse, chegando mesmo a esquecer Afonso por completo. Por que não um mundo só pra ele?, questionou-se o menino. Em seguida, apurou o ouvido, aproximando-o lentamente da nuvenzinha cada vez mais espessa.

“Sim...”, disse a esnobe.

“Também não era pra tanto”, resmungou a maior. Do bolso do paletó escuro retirou, cuidadosamente, um relógio de prata, desses antigos pra burro. “Eu me vestia como...”, recuou ante o riso de escárnio. “Não me olhe assim”, gritou numa vozinha estridente que fez Afonso recuar, para em seguida acercar-se novamente da nuvem falante.

“Acordei apavorado”, acalmou-se.

“Não brinca!”, brincou o outro.

“Não brinco nunca. Esse tipo de coisa... É como se, naquele momento, tivesse a certeza de que...”, e continuou a interromper-se a cada instante, sem completar uma única frase que fosse.

A irritação do outro aumentava a cada interrupção.

“Veja só uma coisa curiosa ali”, apontou uma garota de sorriso medonho na mesa vizinha.

“Sim”, novamente reticente. “É claro!”, suspirou.

“É claro o quê?!” Agora foi sua vez de irritar-se.

“Muito simples: ela é real; você, não”.

Silêncio. A música tornara-se inaudível.

“Ontem não foi assim”, lamentou-se. “A sensação das asas roçando o corpo, os olhos...”. Estremeceu ao lembrar-se dos olhos dela. Dos mil olhos dela.

“Entendo perfeitamente”. Não entendia nada, apenas queria expulsá-lo dali. “Já disse que deveria...”

“O cacete!”, não permitiu que o outro completasse, exasperando-se. “Sonhar com moscas não é assim tão grave; comê-las, isso sim é que me parece estranho”.

Henrique Aráujo
escreve crônicas.
http://www.henriquearaujo.blogspot.com/