Corsário ### Poemas versão inversão - libertino espaço cibernético

 


Bandeira de Guerra


Eu estava vestido como uma bandeira bicolor. / Vestido como um Exú. / Eu era fogo e água e tantas coisas ao mesmo tempo que, na minha garganta não passava nada, nem saliva. / Era uma pedra. / Um nó de forca pronto para esticar o pescoço dos apaches, dos brancos e de todos aqueles que tiveram filhos antes de mim. / Porque dentro do meu estômago alguém dançava em volta do fogo que queimava em minhas tripas.

Eu não estava podre, disto eu sabia. / Faltava muito para minha morte e meu caixão não possuia todos os pregos, ainda. / Era enxofre, era carvão, era dendê que me escorria dos olhos. / E como era quente.

Derretia corações? / Não, devoráva-os depois de queimá-los. / Desfaçatez, ingratidão; esses foram os temperos que o canalha usou, como todos os canahas antes dele. / De mim. / Mas, ora bolas, não era assim que a etiqueta exigia que eu agisse? / Não há regra que se quebre impune, mas também não há quem vá ao prosaico sem passar por um tormento. / É este tormento que voa das minhas mãos agora. / É ele que me faz respirar o intangível ar violeta e girar em círculos todas as manhãs, / porque há sempre uma pomba-gia para lhe dar a mão se você dançar conforme a música.

Meus dentes doem, / meu corpo treme / e não há um só dia que eu não falseie um sorriso. / Porque hoje sou uma bandeira de guerra num momento de paz.


___________________________________________________________
George Araújo.
http://ogeorgenao.multiply.com
_________________________________________________________
Fotografias por Dirceu Matos