Corsário ### Poemas versão inversão - libertino espaço cibernético
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E se nessas noites você rompesse a lua e me alcançasse e corrompesse meu corpo, eu te seria escura nua de razões.
Mórbidos lábios a emudecer tua alma morta há tempos, pele mole de pecados, doces medos. Mas já não estou, tu já não és, nós mordidas longas apenas. Contorcer os sonhos no clarão é o ato mais corajoso que podemos.
Chorar terras, chorar flores, amar dores de nada mais adianta. Estancou. Dilaceramos nossas tentativas sombrias quando nos descobrimos sombras. Cinzas. Mas que lindas, que lindas as chuvas que vieram depois... água quente que salivava da boca vergonhosa do mundo, do grande, do louco abrigo das línguas. Todas, todas elas me excitam me matam as continuidades. Me matam, minhas únicas esperanças. Vou subindo devagar, vem de baixo, baixo som, melodias quase esfumaçadas vão subindo, vou voando, vão baixando, gritos de rancor e vão subindo, alto tom, quase anjos, minhas amargas esperanças girassóis.
As línguas continuam cintilantes a me excitar, palpitantes implorando atenção, gostam de ouvir fantasmas essas coisinhas pegajosas, gostam de ferver a verve dos malditos talentos transparentes. Vai para você o meu mais tranqüilo enterro. Meu mais estranho desespero. Meu suco grosso.
A música continua subindo, as línguas continuam roçando, a mão continua sangrando, a dor continua sanando, a terra se esvai. Os sonhos derretem. A sombra vira chuva. A morte foi. Quando as vozes se apagam nossos corpos se esticam. A alma fendida, o sorriso na testa, a estrela nas costas, os desvios nas portas. Ai, os desvios nas portas...
Fez estórias gigantescas da maneira mais singular possível, costurou dores tal qual arco-iris triste, encantou noites-pérolas infinitas, conseguiu tudo o que não queria. Não merecia o cansaço que castiga, mereceu a chuva, o amor, a paz, os cheiros, os sons, tua música, a queda, tua dor. Tua vida se calou para os cegos.
A vida se esconde daqueles que não sabem ver, dos tolos que não querem jogar, de homens que não dançam. Gostaria simplesmente de dançar por entre as notas! Dançar a dança doida da morte.dança eterna. Me permite? Não.
Não pisaria em teus pés calejados de impasse! Seria insuportável o olhar de admiração, aquelas lágrimas sem nome quase escorrendo, as faces torcidas, nariz acuado, ventre vazio. Pra longe , bem longe de meus legados! Solidão é o acorde do universo. Uma coisinha sem cor, sem cor alguma, á beira da linha do horizonte. Vejo plantas e vejo ferro. Sinto gosto de âmbar. âmbar que chora e que não confia. Gostos que se escondem embaixo de cama-marfim por causa dos vivos.
Horrívelhipócritadoenteásperafeiavivaloucaredondaestranhamedrosamente vivos.
Em nosso peito ainda sobe. Percepções musicais inclinam todas as vontades. Moldam e são moldadas. Há uma troca na hora da saída... ida por ida, morte por morte, perfeição por perfeição. Animaremos teus ardores. É o reconhecimento que alivia. É confortante o teu apelo. É apertado aqui ao lado. É suportável a dor de cima. Senso inundado de calor, tuas visões também me excitam teus dons me manipulam, tuas mãos me levam ao fim. Um leve sopro de dor, um gosto forte de prazer. Algumas coisas ainda conseguem me distrair. Agora eu me inundo, toda molhada, minhas mãos apoiando a cabeça, sangue por todos os quadros, sangre por doquier.
Larguei as velas. Já não queimo meus dedos. Pequeninos dedos. Cera que consola a insônia dos loucos não mais será minha aliada. No tornozelo bastam as palhas, as tintas, as palavras, ha milim. Nos dedos bastam as idéias, o cigarro, as fumaças desses mundos. No espelho resta o rosto branco. sobrancelhas altas, gargalhada ingênua. Mas fenômenos tem dessas coisas... se é apenas. Não se sabe, não se está, não se quer, só se sente e sente ser quando não. Expressões de asas batendo em vidro. Um enfeitado aquário de vidro.
Asas batendo doídas, cansadas, entediadas, asas presas batendo em vidro. Asas presas cortando a carne. A música continua subindo. A continuidade ainda está vidro. Impressões confusas toco.
Erika Zaituni
poeta