Corsário.Poema lançamento.experimento. versão inversão - libertino espaço cibernético


* >> possibilidade de referência de um objeto ou acontecimento presente ou - o sol queima as cabeças
- Eduardo Cardoso



O andarilho, o andante na beira do Rio Branco, passa, cruza o sinal que faz olhar pra cima e ver o sol que queima os olhos das pessoas e o sol que queima as cabeças.

O andarilho lê o jornal de ontem, hoje. O andarilho vê um esfarrapado na rua, o esfarrapado lhe chama a atenção. Esfarrapado beija: um beijo em uma moça de uns próximos 25 anos, não mais.

O esfarrapado é jovem, o andarilho também é jovem. Andarilho: o andarilho brinca com uma garrafa plástica enquanto olha o esfarrapado. O andarilho brinca com a garrafa para disfarçar. O esfarrapado e a moça deixam o andarilho preocupado, depois de terem chamado a atenção, agora causam preocupação. Uma multidão de pessoas que saia do cinema que ficava do lado do antiquário que era em frente à loja de discos raros andava em direção aos trens.
Multidão cega
,

com as cabeças ao sol, fritando fotogramas. O andarilho chuta a garrafa longe. A garrafa alcança a multidão, a multidão engole a garrafa, o andarilho fixa os olhos no esfarrapado que descolava a boca dos lábios da moça. A multidão engole o esfarrapado e a moça. O relógio da catedral, do final da rua, bate três horas, o sol queima as cabeças das pessoas. Eram três horas e um minuto, o relógio da catedral estava atrasado, as pessoas se sentiam atrasadas. O esfarrapado despede-se da moça enquanto a multidão os desengolem, o esfarrapado já se despediu da moça e agora anda pouco atrás da multidão e entra na direção dos trens onde cada cidadão se posiciona em alguma fila, não antes de se espalharem e deixar exposto o esfarrapado que tira da bolsa uma nota de dinheiro e compra um tíquete. O andarilho vê a multidão se afastando do ponto de engolimento do esfarrapado e sua moça, o andarilho vê a moça que olha a multidão se afastar e de súbito – a moça - dá as costas para a multidão e o andarilho vê tudo.

O andarilho lembra que o sol vem queimando sua cabeça.







Afago

o homem pede o beijo na hora maldita do bar
os homens do bar sabem se conduzir sem medo
pela via
vendo de todo modo como os andares
rabiscam a calçada


invocar o nome de cristo muitas vezes – ou três vezes
gostar ou não gostar
lembrar-se da esposa - três vezes
garotas brancas caminham na calçada

e realmente sua vida era biografia – o homem que pede o beijo
daqui vejo o mar e ele me fere com estacas do curral mais próximo

mesmo na praia, lugar do sol
ponta do mundo
o lugar dos prazeres que deixamos para trás
mesmo lá onde o desleixo em derramar a bebida no copo
a bebida no copo
e ver os meninos de corpos nus que
seguirão intactos

onde os anos de minhas passagens, com
as lembranças da velha namorada
e as lembranças de quando a aproximação me deixava re-ativo
na hora maldita do bar e
pede ao amigo que afaga o escarro
segue a hora sem impedimento
pede o beijo na hora maldita do bar



demora


Acordado à noite, relapso no claro, formigava de pensar e tudo de útil lhe alegrava, só fazia o que não fosse concluir, pois era pra dar vontade de fazer tudo, sempre sem parar. Sua dúvida radical, como era seu mundo, lhe parecia agora inútil mas o levava ao uso maior do raciocínio.

Uma alavanca tira o mundo do lugar, um peso para o lado faz tombar, sabiás somem dos pés de laranja, as folhas sobem com o vento mas não voam. Intestino irritado com a demora da vida, a vida sem demora no seu lugar menos apropriado. Comia feijão com tutu de feijão, exagero de pesado, um bife feito na banha. A comida descia a garganta e fazia sono que não dava mais, o despertador dizia que acordar seria difícil depois, nem atento estava. Queria um cachorro, ali, agora, para afastar a solidão, se identificar com um de focinho longo, esperava por isso há tempos e andava de mau humor, não encontrava um bonito.

Ali no pé de laranja, o vento, levando as laranjas, para lá, para cá, o vento, levando... as folhas não podiam voar. O sítio alongado em volta da praia, sem cachorro, onde tudo se larga, se alarga, sobre as escadas o berimbau, sobre as costas uma vontade curta de esperar pelo motivo mais justo de querer.

Tenha um bom dia, dizia pra si mesmo e tinha mesmo um bom dia. Às vezes, batia a mesma agonia das tardes, era falta de água na boca, o dia sentido na maravilha das sombras grandes, as vespas nas paredes, as trilhas não seguidas do lugar.


num cruzamento faço minha permuta


Nina, a Tereza lhe chamou para caminhar no asfalto. Ver os peixes mortos de lá. Os ratos caídos na sujeira dos dias. Num cruzamento faz-se a permuta, vê todo o trânsito, escuta o tilintar dos santos nos espelhos retrovisores, o dia de merda desses anos batidos. A família colocada certinha na vidraça, mostra os dentes. Hoje não lembro nada do que falo, às vezes lembranças jogadas me fazem lembrar, são do dia que não sei mais. Minha memória está capenga, deixo então existir os dias, existir as noites e não mais eu. Canso-me... canso-me da memória que tenta tudo, tenta tudo saber e sabe nada, vou escolher então a loucura, desprendimento do não lembrar, desaprendizado do se souber. Não sei mais do além mundo de que tanto sabia existir. Os amigos sempre presentes, nas horas da semana, nas horas certas do dia, estavam em todo o lugar comigo, eram sempre perdidos, sem saber de tudo, mas me diziam quase sempre o que eu precisava

Eduardo Cardoso


versão 2.0