Corsário ### Cartas versão inversão - libertino espaço cibernético
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Help! Solidao Multimidia
É domingo. São três horas da tarde. As formigas se amontoam sobre os restos de miojo do almoço. A casa ecoa vazia. Desde uma hora estou no meu confinamento. Nem os berros defecados pela descontrolada TV (e amante) do vizinho são capazes de impedir que a minha alma se evacue da carne!
E no momento em que o espírito começa a transcender à matéria, acaba por ser mais uma vez contido pela mente, que a extrapolados 365 dias insiste em projetar um mesmo filme sobre o pano interno das minhas pálpebras. Não suporto mais essa psicose! Preciso exorcizar de vez essas imagens da cabeça, pois nem mais os entorpecentes me fazem digerir o sono! Necessito com toda urgência: demitir o segurança, instalar um interfone, arrancar três grades, pôr quatro escadas rolantes e distribuir por toda cidade as cópias das duas chaves que abrem as fechaduras da porta da minha quitinete. Quero um qualquer que queira agora me escutar em Campina Grande!
Ainda como manda a dura rotina, ponho um rápido the end nesse drama de Sessão da Tarde: retiro os carnosos panos de projeção e edito um fade-in do meu quarto sobre as retinas. Todavia, diante dessa paisagem morta, pela primeira vez, em slow motion, traço uma panorâmica de 180° com as minhas sonolentas semigrandes angulares castanhas; possivelmente à procura do último telespectador. Sabe aquela espécie de indivíduo que só se retira do cinema após ver a morte da palavra "Dolby Digital"? É exatamente um Homo Leão Jubarte desse de quem eu necessito. E, tal como os ridículos acasos dos roteiros hollywoodianos, num é que eu me deparo com um sentado sobre a minha escrivaninha, bem quietinho, entre as minhas "ficantes" Playboys!?
Confesso, contudo, que sua aparente falta de memória, associado ao seu "visu" da terceira idade e à total falta de intimidade entre nós, me desperta, logo de início, um certo clima de desconfiança. Preconceitos à parte, prefiro de antemão ainda não lhe chamar por seu famoso apelido "PC", mas somente por seu nome estranho, acompanhado pelo primeiro tratável pronome que me vem à cabeça: Velho Pentium-100.
Inaugurada a minha comunicação com o distinto - como diria o meu metamorfizado presidente - "companheiro", no imenso buraco negro em que estou, mais do que mero bobo-da-corte, cedo-lhe logo a maior de todas as patentes do meu reino medieval: a de Excelentíssimo Senhor Confidente. Terminadas as cerimônias de nomeação, despejo de imediato sobre o Word98 do pálido Pentium-100 todo o peso da mente que me encrava a alma na carne e prensa os meus novos devaneios contra os velhos. Falo do incômodo curta-metragem! Falo da maior incógnita da física quântica! Falo da frase mais vulgarizada e prematuramente falada da atualidade! e que agora EU FALO de modo descompassado, frame por frame, pressionando os meus inexperientes indicadores contra as teclas calejadas do novo confidente: EU TE AMO Socorro!
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David Sobel - poeta
contato: davidfsobel@yahoo.com.br
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Fotografia por Mardônio França