Corsário ### Prosa versão inversão - libertino espaço cibernético

Ópera

Dou 15!”

            

E foram para o motel mais próximo. Ele, 57 anos. Músculos torneados pela estiva constante no cais. Ela, um travesti montado. 24 anos. Bunda, seios e rosto de silicone. Andréia aos 14, fora expulsa de casa. O pai o expulsou quando revelara os primeiros traços da feminilidade. A velha história. Preferia ter um filho ladrão do que veado. 

Por 15 eu só chupo” 

Quando viu o tamanho do cacetão chupou como nunca e deu a bunda por puro deleite. O cinqüentão fodia como poucos. Nunca em toda a vida André fora tão bem enrabado.

André, humilhado e espancado pelo pai, ruma para o Rio. Vagou pelas ruas da cidade maravilhosa. Fome, frio e violência. O Rio de Janeiro deu-lhe tudo o que a cidade guarda de direito para quem vem do Nordeste e é bicha, negro e pobre.

Recebeu de bom grado todos os presentes, até encontrar Lindalva. Travesti cafetina que mantinha uma casa de lazer em pleno centro. 

Como se chama?

André

Quer mudar de vida?

Só se for agora!

         

Oito anos de prostituição. André virou Andréia, com seios e bunda à venda.

Como toda bicha que faz a vida e se preza, juntou dinheiro. Voltou para Fortaleza. Em sua cidade natal, comprou uma casa e montou um centro de lazer. 

Posso te ver de novo?” 
 

Com uma ferramenta dessas você pode me ver quando quiser.” 

Raimundão, como era conhecido no cais do porto, era filho do famoso estivador Raimundo da Silva. Lendário. Ninguém carregava mais peso de uma só vez do que ele. Ninguém fazia tanto sucesso com as mulheres. Ninguém tinha o pau maior do que o dele.

Raimundão nascera e se criara ali mesmo, naquela barra de mar. De herança, a força do pai e o tamanho do pau. Poucas eram as mulheres que o agüentava. A mãe de André foi uma delas. Depois que Raimundão matará duas mulheres com sua varinha de condão. As mulheres o evitavam. Sua fama era conhecida de uma barra a outra. Francisca Cacimba tinha sido a última mulher com a qual conseguira manter um relacionamento. Depois dela, só travesti.

Andréia, apesar do silicone nas nádegas, tinha um ânus privilegiado. Seu pau era pequeno. O que chamava a atenção era a profundidade do seu rabo. Um encaixe perfeito para o pau de Raimundão. 

Chupa veadinho!

Assim gostosão?”

Agora deixa eu botar no cuzão. 

Raimundão sempre na estiva das 10 às 20. Tinha 57, mas o rosto aparentava 15 anos mais. Desde que conhecera André, todo o seu dinheiro era para dormir com o travesti de sua vida. Dormia com André três vezes por semana. 

Você é o cu da minha vida.”

E você é o pau dos meus sonhos.” 

A casa de lazer de André ia de vento em popa. Muitos clientes. Muito dinheiro. Mas André não conseguia tirar a pomba de Raimundo da cabeça. 
 
 

Toma, toma, toma...

Ai, ai, ai...” 

Viam-se todos os dias da semana. Três anos e meio de muita enrabação. Até que Raimundo sofre um grave acidente no cais. A haste de um guindaste atinge-o de cheio. Raimundão no hospital entre a vida e a morte. Restam-lhe poucos dias de vida.

André não tem dúvida. É chegada a hora. Toma um táxi e ruma para o hospital. Um raio de luz nos olhos de Raimundão. André não diz uma palavra, entrega para Raimundão um papel e sai rebolando a bunda, numa calça coladíssima. Os olhos de Raimundo seguem aquele rabo maravilhoso.

André desaparece do quarto. Não há mais rabo para ser comido com os olhos. Resta o papel. Uma folha de papel. Uma Certidão de Nascimento de André Raimundo da Silva Neto. 
 












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Cláudio Portella é escritor. Nasceu em Fortaleza em 1972.

Autor de Bingo! (Porto – Portugal: Editora Palavra em Mutação, 2003) e da antologia Os Melhores Poemas de Patativa do Assaré (São Paulo – SP: Global Editora, 2006). Seus trabalhos estão traduzidos em vários idiomas. O escritor é publicado em inúmeras revistas, jornais, suplementos, revistas eletrônicas, sites, blogs e flogs.
Contato: clautella@ig.com.br

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Fotografia por Dirceu Matos.

 
 
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