Corsário ### Prosa versão inversão - libertino espaço cibernético
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dear prudence
águas de fevereiro na esperança de mudanças na vida. começa o dia arrastando os pés pela casa e observa atentamente esse movimento que poderia facilmente ser impensado na intenção de evitar os outros pensamentos que quebram o sorriso no canto da boca. café e pão sustentam a energia da manhã. livros livro livros e a foto desbotada dela. nem se falam mais. vez por outra, imagina o telefone tocar. vez por outra, relembra o dia em que voaram de cima daquela pedra feito urubus. o calor da rua penetra seco, trazendo os cheiros da cidade. pessoas entram e saem na mesma velocidade da manhã que não passa aguardando o almoço do meio-dia.
sua vida não daria um romance: ela é muito pequena. as crianças alardeam uma alegria pesada de suas obrigações escolares. se afasta pros fundos e fuma um cigarro: tranquilo. pensa na foto; pensa no beijo. esmaga a guimba vagarosamente entre o polegar e o indicador. quase viu a brasa se apagar no próprio braço pra deixar, pelo menos na memória, o consolo da punição. era tudo mentira. ele não compreende, não consegue compreender. apenas concorda mudo, quando consegue manter-se ereto às contra-partidas alheias. não tolera enxergar os palmos além da vista cansada.
falávamos de sincronicidades quando se apaixonou. hoje não fala mais: contorce apenas; lamenta. dos dias da semana relembra as pedras do calçadão, as escadas, o cabelo solto, a sala apertada, os ruídos contidos, as ausências equivocadas, as gargalhadas alheias.
nunca tiveram um sábado, ou domingo. esse seria o depois: quando tudo se apagou. cessada a alegria, tomado o caminho contrário, não havia mais divisas. nenhum quilômetro os separava de fora do ônibus. não havia mais ônibus; nem mentiras mais havia. só havia o silêncio, e o peso da inércia.
jogou a moeda pra cima pra decidir: não deu cara. nem coroa.
Candice
*Fotografia Glauco Leandro