Corsário ### Prosa versão inversão - libertino espaço cibernético
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Toque Oriental
Ele foi detalhista como um japonês e eu me senti um vaso de porcelana.
Ele parecia me conhecer há séculos e pensei que assim são os orientais: feitos de séculos. Isso estranhamente me fazia sentir mais próxima dele, esse cheiro de algum século passado.
Ele cuidou de tudo. Pôs a mesa com pequenos pratos e pequenos hashis que pareciam feitos para as minhas mãos pequenas. Os copos transparentes e o vinho escuro, o apartamento detalhadamente decorado assim como um japonês faria. Almofadas, sofá, cadeiras, tapete, revistas e livros, cortinas de madeira, abajur ligado, música daquelas e eu que ainda não havia chegado. E tudo já estava lá, antes de mim. Foi isso que pensei assim que cruzei a porta. Aquele lugar podia viver sem mim. Mas como a mesa tinha dois lugares lá estava eu. E ele.
- coloquei o vinho nos copos para melhorar o aroma. E o sabor, claro. Iniciou ele.
Sempre parece não se saber o que dizer assim nesses momentos em que não se sabe o que dizer.
- ah sim, claro. Pra mim está ótimo. Sorri de lado.
Vasculhei o apartamento com olhos ávidos. Havia quadros de uma Tóquio distante, de distante séculos. Retratos de parentes tão distantes quanto e velhos, muitos velhos. Deviam ser os avós, pensei, e os amigos dos avós e os amigos dos amigos dos avós. Ele me disse que seus avós moravam em um vilarejo e que a população desse lugar era iminentemente de velhos por que os jovens literalmente fugiam para a cidade mais próxima até descobrir que a cidade mais próxima era outro vilarejo. Uma sucessão de vilarejos era o que eles descobriam até chegar a cidade de fato. Muitos desistiam e voltavam ao antigo vilarejo, casavam rapidamente e envelheciam, com a mesma rapidez.
Quando ele falava, delicado e baixo, até parecia poesia. Sim, ele é escritor e isso talvez faça com que ele se utilize disso. Talvez horas de leitura o faça falar manso e com cuidado nas palavras. Cuidado com as palavras sempre foi algo que admirei, é preciso sentí-las e sempre encontrar a certa, a que se encaixa. Por isso talvez eu fale pouco. Muito cuidado com as palavras. Mas ele, com a fala mansa e gestos redondos, prosseguia com a fala-poesia por longos minutos afim. Eu comecei a gostar, me eximia de não saber o que dizer. Conversamos sobre o Japão e logo surgem mais fotos, primos, primas, tias e mais velhos.
- as paisagens são lindas, eu dizia.
- é, são. Ele respondia.
- onde fica isso? Perguntei.
- essa é casa aonde nasci.
- você nasceu numa casa em frente a um lago e uma montanha? Com olhos brilhando de inveja.
Ele riu como se aquilo fosse a coisa mais natural do mundo.
- é que eu nasci numa cidade muito pequena e por sorte ainda tinha um resto de natureza por lá.
- resto de natureza? Uma montanha e um lago? O parque do cocó sim, é um resto de natureza. Rimos.
Passamos então para o jantar. Ele mesmo havia preparado. De fato foi assim que tudo começou. Nos conhecemos falando de comida numa mesa de bar com amigos em comum. Eu falei que fazia um prato assim e assado e ele disse que fazia outro e então por que não. Combinamos.
Ali estava, então, com a mesa posta, a taça cheia e o coração vazio. Fato que ele desconhece. Continuará desconhecendo. Não há palavras para descrever o que é vazio por dentro. Talvez vácuo preencha essa descrição, mas como estávamos ali diante de um jantar tão delicadamente preparado e com tal zelo que tornou-se imprescindível calar.
E o que era desconforto pelo desconhecido logo se transformou em bela mágica. As conversas fluíam e pareciam estar diretamente ligadas a termos sentado à mesa. Assim que nos dispusemos em nossos assentos o apartamento pareceu maior e mais aconchegante, a música era parte do prato, o vinho era parte nossa. Nunca havia comido sushis caseiros e sim, ele sabe fazer sushis e sabe fazer palavras. A certa altura os sushis pareciam mesmo estar enrolados em palavras frescas.
E fomos assim até a noite se romper em madrugada.
Dia novo já era e ele não se portou como um homem. Assim como estou acostumada. Não houve conversa frouxa ou tesouros escondidos de última hora, nem mãos ou todo o tórax por cima de mim. Não houve atropelos ou desejos incontroláveis, nem pressa ou angústia. Não houve o querer-se ou bastar-se por essa noite. Na verdade até parecia que ela não tinha se ido. Mas foi e junto com ela as palavras, os acertos, os goles, o cheiro de peixe no mar e as fotos antigas.
Em casa, a destilar o fiado das horas passadas pensei que nova aurora se faz sempre mesmo que você seja noite. E que nova aurora com toque oriental faz o sol nascer mais alto.
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Ayla Andrade
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Fotografia por Dirceu Matos