Eu queria escrever sem saudades e usar ao invés de tinta o sal arcaico dos mares.
Eu queria saber em qual dia exato se desfez em minhas mãos a carta sagrada
– roteiro e guia – de minha viagem impossível às terras de pasárgada.
Eu queria ser arrebatado por um instante – efêmero que fosse – para o mais distante: o lado de fora do tempo.
Ao menos hoje não fosse domingo, não fizesse sol e tanta gente na praia ou ao meu lado uma mulher
louca e tresloucada vestida com o silêncio da noite passada me fizesse num único
e solitário gesto a companhia de estrela naufragada. Não sei quem sou nem o que quero – desconheço a força rude que me move.
Não sei de onde venho nem para onde vou – apenas pressinto o cio dos ventos que se aproximam.
Parir deve ser como sentir cantares de velhas partidas. Vi mais uma vez as jangadas e as carroças estranhas: incendiadas pelo fogo castanho de uma memória sombria e parda. Revi a luz negra do asfalto irradiando a madrugada inacabada de nossos sonhos perdidos. Quiçá ser pirata isso seja: navegar, navegar, navegar. Viver de saquear a história mais longa – grávida dos acontecimentos que poderiam ter sidos e não foram, feroz e felina com olhos de pasto incendiado. Seguirei palmilhando as intempéries dos dias vindouros – animal que marcha sobre o solo pedregoso. Ao menos não estivesse nesta fortaleza sitiada ou soubesse dançar qual as algas os ritmos lunares. Não usaria mais as letras e sim as sensações da pele. Não usaria mais frases parágrafos nem mesmo travessões e sim os movimentos mais lúcidos de um corpo que se recusa a definhar. Gostaria de me encerrar na caverna dos maiores – tocar o medo e a tristeza dos longos dedos de uma pianista em lágrimas. Não posso, nada posso. Sou corsário: imperfeito, inapto, partido. Antes de tornar-me porto abandonado pelos barcos, sigo.
Testamento de uma outra vida – esta mais enigmática e indecifrável pois ausente de aconteceres.
Preenchida por um uivo insensato – vibração cega de um nervo exposto. Havendo divindades vivas –
serão elas também corsárias após o findar do impulso amoroso. Quedaremos tristes na praia ou nas
margens ébrias dos rios e alucinadamente buscaremos nosso reencontrar. Eis a voracidade desta estória mais longa.
Eis a força que sustenta a nossa dor. O caminho maldito do sol em todo o seu esplendor.
Nuno Gonçalves - poeta e professor
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