imagem : Dirceu Matos

Desnorte


Eu escrevo pra mim mesma a somar rimas.

Uma por cima das outras, como os eus por cima de mim.

Como as borboletas úmidas que pousei em seus lábios.

Como bênçãos a beira-mar.

Perdoei-me se pisei nos seus pés enquanto dançávamos, mas meus ombros pesam tanto que só bailo em baixo dágua.

Construções subaquáticas abalam os meus terremotos:

Em tempos imemoriais eu me barbeava com dentes de marfim e não sabia pra que serviam os pêlos.

Eles estavam lá e eu insistia em os tirar.

Até que um dia, em que se morre, deixei os pêlos crescerem e eu cresci junto. e neles me agarrava, a puxar a mim mesma,

a somar dores, uma por cima das outras, como ecos por sobre mim.

Abismos saídos dos olhos e do largo silêncio entre nós (fósseis que em outra noite estavam vivos e nos devoraram, mas que gosto tínhamos? Não sobrou acre, azedo ou doce na língua? Não sobrou úmido ou molhado? Então não trazíamos gosto).

Mas sobramos restos de nós e da noite que é sempre a mesma a passear por nossos copos cheios e corações vazios.

Eu falo por entrelinhas por que quando grito pareço sussurrar.

Quando levanto pareço cair.

quando morro pareço voar e quando vôo pareço teimar que os dias nublados são mais belos.

O resto do tempo ajo por mim a somar erros um por cima dos outros, como sua pele por sobre a minha e esse poema que não tem fim

somando sílabas como vagões de trem a me cruzar.


Ayla Andrade - poeta e contista cearense
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