imagem : Dirceu Matos

Talismã 


    Eu sou os olhos do cego

    e a cegueira da visão.

         Raul Seixas 

    É-se punido principalmente pela própria virtude.

         Nietzsche 







Os olhos avançam,

estão cansados e ardem,

fazem seu dever apenas: 

resgatam ardências reais,

salgam águas doces do sorriso

e alguns vermelhos

impregnados de rosas

e lágrimas em silêncio.  

Os olhos avançam, lacrimejam,

e não festejam senão aquilo

mais visto que modificado: 

audiências rítmicas do dia,

da noite, do verso, dos olhos,

iluminando nosso assombro cabisbaixo

encostado num poste

de luz caída na esquina. 

Os olhos avançam,

mas resta o sorriso

em seu devido lugar: 

nas noites endoidecidas,

na cara de quem passa

e não ver que tarda

avançar: olho no olho 

nos passos desse tempo

que se encosta em silêncio. 


João de Moraes Filho - poeta baiano
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