- A paisagem é mesmo linda!, dizia ele admirando, do carro e por sobre o viaduto, os arranha-céus da cidade grande e pequena. Ela contemplava o céu e dizia a si mesma que não tinha mais saída e o melhor era se jogar dali mesmo. Do viaduto. - O cara é um filho da puta. Eu sou uma filha da puta. A cidade tá cheia de filhos da puta.Sem saída. O filho da puta dum beco sem saída. Jogar o carro daqui e matar logo 02 filhos da puta. 02 a menos. Não vai fazer diferença. Eu sei. Gritava consigo mesma na imensidão do oco de dentro. - Sempre nascem mais. Vindos de estupros, incestos, amores não correspondidos. Pior, mal correspondidos. Sempre nascem. Vindos de ventres de barrigas, de lindas madamas e filhos da puta como eu e ele. O carro rolava lentamente no asfalto do viaduto, os pássaros voavam tranqüilos, os outros carros buzinavam atrás, mas longe: - Passa por cima, filho da puta! O grito interrompeu o silêncio de dentro. Silêncio de dentro, silêncio de mergulho no rio, silêncio de fôlego de peixe e silêncio do antes não se interrompe no viaduto. - É agora. E ele nem sabe. Nem sabe o que o espera lá em abaixo. Nem eu mesma sei. Mas não é o abraço da mamãe, nem o beijo da ex-mulher, nem o conforto da conta bancária. Mas sim, o chão. - Ele sempre foi rasteiro mesmo – elaborou, com um sorrisinho de canto de boca; Quase deliciada com a cena. E o carro voou. Leve, devagar. Tinha asas de borboleta que pesavam como um carro. - Filha-da-puta. sussurrou ele. E foi a última coisa que ela ouviu.
Ayla Andrade - poeta e contista cearense
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