Boca da madrugada ou na volta pra casa
Desafiava os gumes das facas desviando-se deles.
Pensava sair ileso, sempre.
Pensava.
Não notara os arranhões, os cortes, o sangue, a
carne vista por dentro...
Era esse o seu jeito de conceber o mundo.
Mas não concebia nem a idéia de se deixar ferir
pelos gumes.
Senti-los ao invés de desviar-se.
Senti-los penetrar com dor.
Com dor.
É assim que se concebe o mundo.
Por isso eu gosto da literatura.
Agora, nesse momento,
(enquanto jogo os gumes em você) te faço doer.
Você dói.
Embora sentado na cadeira suja de algum bar
imundo.
Você dói.
E fui eu que fiz.
Tá doendo, meu bem?
Então deixa eu comer seu coração que você disse
que
era meu.
Ademais, você não saberia o que fazer com ele.
Nunca
soube.
O seu lance é atirar pedras.
Pedra na cabeça do dia.
Pedra na língua das mocinhas.
Pedra na alma dos mortos.
Pedra no meu sapato.
Meu amor, eu já vendi sua alma ao diabo e
adivinhe?!
Ele recusou.
Ayla Andrade - poeta e contista cearense
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