imagem : Dirceu Matos

Da infância


Nessa noite de sexta-feira treze encontrei sapotis na cozinha.

Ah! Sapotis!

São meus desenhos animados de infância, são minhas aulas de biologia, meus sabores pueris, o cheiro de meu pai. Que cheiro terá tido a minha bisavó junto do vô torto batendo panelas nas noites de eclipse com medo que as plantas no sono queimassem arregalando seu olho azul?

Ah, como eu adorava e adoro os fiapos finos dos sapotis. Sua pele agreste, levemente caraquenta, sua cor cáqui e seu finzinho esverdeado. Quanta delícia, como eram enormes e suculentas as goiabas brancas que vovó catava pra sua princesa!

Como era doce nos domingos de sol na areia branca olhar o azul de olhos fechados. Era uma doce brincadeira que adorava, como adorava e adoro hoje o gosto forte de sal do mar. Como adorava e adoro hoje desenhar sombras dançando os dedos mirando os caleidoscópios.

Depois de catar pitombas e encher d´água a boca com o cheiro do tamarindo, vovó nos intimava a lavar os pés pra comer e catava as mais vistosas dálias brancas que levavam toda a semana pra murchar. E eu me deliciava com seus doces de banana em calda, o seu peixe frito crocante e seu cheiro de flor.

Vovó puxa da gaveta um vestido azul minúsculo que fôra da sua netinha. Dos objetos restantes do passado, dos raros objetos restantes. Há a Lenda, a boneca que completou cinqüenta anos aos vinte dias do dezembro passado. Lenda piscava os olhos como nenhuma outra boneca da casa, as outras bonecas de pano costuradas pelas próprias crianças.

As bonecas de meu pai chamavam-se sempre Diana.

Dos poucos objetos restantes de minha avó, os anéis e um espelho todo trabalhado onde ela já não mais se vê. Minha avó que sempre gostara tanto de enfeitar-se pintando o rosto escovando os cabelos.

Meu avô foi comprar cigarros e jamais voltou. Eu tive um pouco de pena dele que só podia ser muito tonto. Da vó sabia a coragem de seguir a própria saga.

Meu pai não lembra do seu. Só sabe que um dia apanhou e o medo ¿ ou a dor ¿ escorreu molhado pelas pernas enquanto corria miúdo a esconder-se por trás d´uma rede, nem três anos ainda, correndo pelado.

Vovó catava moedas pros ovos, reforço da janta. Papai se envergonhara tanto do dia a caminho da bodega brincando, jogando-as no chão. Perdeu-se na areia a moeda, o caldo não pôde engrossar. Minha avó quando se viu só. Só sem mãe marido ninguém. Só ela e mais quatro olhinhos verdes, dois azuis, dois do castanho mel da jandaíra esqueceu-se até de chorar.

Foi costurando a vida. Foi tecendo. No quinze era menina, mas lembra o sufoco da névoa subindo a poeira na terra seca e a fome. E quanto pôde espalhou jardim.

Nós bem caberíamos no banco em meia-lua sob a copa do tamarineiro onde contaríamos histórias. Não tendo sido esse o nosso destino o banco caiu de solidão. Quem pôde guardou na lembrança os montes de batata doce brotando na terra úmida. Quem pôde trepou e chupou sirigüelas. Mordiscou talo de erva doce e espantou sapo com sal.

Daquilo que sobrou nem mesmo restou tempo de secar as lágrimas. E o motor corre no toque do pedal da velha máquina a costurar a vida. Aquilo que restou dela.


Diana Leite - contista cearense
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