- Mãe, por favor ... - Deixa disso, mulher ! Ele tem que fazer a vida dele. Um homem precisa escolher sozinho o seu caminho. - intervém o marido, irritado. - Até você defende ela ? A mulherzinha me odeia, eu sei. Morre de ciúmes de mim, coloca filho contra mãe. Mas eu já me conformei com a traição de todos vocês, sei que o casamento é inevitável, não tem mais jeito ... - Não estou do lado de ninguém, apenas falo o que é certo. Agora, larga de besteira e não enche o saco do seu filho. Tá chegando o dia mesmo, te conforma, mulher ! - Claro que sim, filhinha. Olha, já está chegando. Faltam quantos dias mesmo ? Ah, é, vinte e dois, eu conto cada dia. Você vai ver que vai sair tudo bem. - Tem uma coisa que eu não consigo parar de pensar, que me atormenta ! - Minha filha, já falei que está tudo certo. Tivemos hoje na igreja e no bufê, semana que vem voltamos lá, está tudo confirmadinho, arrumadinho, até a costureira tá adiantada. - Não, mãe, eu tô falando da velha. - Ah, filha, por favor ! Não me venha com este assunto de novo ! Você vai casar, não é ? É o que interessa. Além disso, cá entre nós, ela já tem idade bastante avançada, e ainda por cima sofre do coração. Não teve um problema outro dia mesmo ? Você vai ver só, não vai ter que aguentá-la por muito tempo... - Deus te ouça, mãe, Deus te ouça ! Só de pensar em ter ela tão perto na minha vida daqui em diante, fico desesperada. A sessão de fotos na casa da noiva termina, e o luxuoso automóvel preto, alugado com motorista, se prepara para partir. De repente, o primo do noivo, que era também um dos padrinhos, chega correndo à casa. A noiva olha assustada para ele. Após um curto silêncio, alguém pergunta: - O que você está fazendo aqui ? - A tia ... - O que tem a velha ? O que ela aprontou desta vez ? - pergunta a noiva, em tom agressivo. - Ela morreu ! - Olha, eu sinto muito, de verdade. É uma tragédia. Mas ela está descansando agora, vinha sofrendo muito com a doença ultimamente, não é mesmo ? Ele apenas assente de leve com a cabeça, algumas lágrimas ainda escorriam pelo seu rosto. - Sei que é muito difícil para você, mas a gente tem que pensar em uma coisa. Por favor, escute o que vou dizer. São sete horas, a igreja deve estar lotada, as pessoas impacientes. Pessoas que se importam conosco, também, e que amavam ela. Nós temos que ir agora. Quando acabar a cerimônia, a gente volta ... Ele a olha nos olhos, e não consegue falar nada. O pai dela, que havia escutado quase tudo, repreende-a discretamente com um sinal. - Por favor, me ouça, nós temos que ir. Desta vez, ela fala mais alto, angustiada, e quase todos os parentes da falecida escutam. O ambiente fica tenso no apertado recinto. Ela insiste mais uma vez, até que se descontrola: - Ou você vem comigo agora ou nunca mais olho pra você ! O noivo, finalmente, se manifesta: - Sai da minha casa. - O quê ? - Saia da minha casa, agora ! Vai, porra ! - Seu idiota, sabe o que está dizendo ? A velha morta era a única pessoa a não tentar apaziguar o ânimo entre os noivos. De nada adiantou, porém, a intervenção dos parentes, pois a menina perde a linha de vez, gritando pra falecida: - Safada, miserável, mesmo morta acaba com a minha vida ! - Calma, pelo amor de Deus, filha, olha o vexame ! - Me solta, esta velha desgraçada ! Ela fez isso pra acabar com meu casamento ! E a noiva, toda de branco, sai correndo e gritando pelas ruas mal iluminadas do bairro.
- É, meu filho, sua velha mãe não tem como evitar. Você, meu único filho que me ficou, vai casar. Logo você, meu caçula, com aquela jararaca ...
As semanas se passam, até a esperada ocasião. De classe média, o casal não havia planejado um casamento marcado pela ostentação. Mas também não decepcionaria os convidados. Haveria uma recepção após a cerimônia, no salão da própria igreja, que se localizava no centro da cidade. Uma capela discreta, mas tradicional. Foi escolhido um grande número de padrinhos, consequentemente aumentando a quantidade de bons presentes. As pessoas que estariam no altar, perto dos noivos, eram divididas igualmente entre íntimas do casal e outras não tão chegadas assim, mas de excelentes condições financeiras.
- Mãe, estou tão nervosa . Será que vai dar tudo certo ?
A casa fora arrumada para a ocasião. O fotógrafo se esmerava no serviço, fazendo gracejos sem a menor graça para tentar relaxar a elegante noiva. Quando depois de muitas e muitas fotos ela resolveu apressá-lo, os pais a tranquilizaram. Afinal de contas, noiva que é noiva chega sempre em cima da hora, até mesmo atrasada. Naquele exato instante, a pequena igreja encontrava-se cheia de flores e gente. Alguns convidados estranhavam a ausência do noivo, que normalmente chega antes e espera a futura mulher com ansiedade, como se ela pudesse deixar de vir.
Os carros partem para a casa do noivo, que era bem próxima. A nubente chora copiosamente, consolada pelos pais. Chegando ao local, ela salta correndo, com seu enorme vestido, chamando a atenção da vizinhança. Dentro da casa, alguns poucos parentes cercam o corpo da mulher, estendido na cama. O resto da família está na igreja e ignora o fato. O filho aperta a mão dela contro o rosto, e chora como criança. A noiva se aproxima silenciosamente por trás, arrastando seu véu, e o abraça. Ele chora mais ainda. Logo todos ficam sabendo que foi um ataque cardíaco rápido e fulminante, durante o banho. O vizinho, que era médico, deu a notícia, e nada pôde fazer. De qualquer forma, uma ambulância estava a caminho. Durante uns minutos, ninguém diz nada. Depois, a noiva começa a falar baixinho no ouvido do companheiro:
André Calazans
André Calazans - carioca, publicitário, e escreve contos ...
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