Desperdicei meus melhores anos com ele
Já nos últimos anos fazia sem forças, sem vontade, sem desejo. Nem por ele e nem por mim. Mas fazia sempre que ele me ordenasse. Ele tinha meios persuasivos de me convencer a fazer o que não eu quisesse. Desperdicei meus melhores anos com ele e nem vi as chuvas passarem, os córregos encherem e secarem, as crianças crescerem. Nem vi. Os pés de caju no quintal me faziam companhia. Sim, faziam. Cosia horas a fio as camisas dele, botão por botão, fenda por fenda, sob o olhar majestoso dos cajueiros. Enquanto ele derribava folhas e cajus eu derribava grossas gotas de lágrimas sobre a pilha de roupas pra lavar, sobre os pratos encostados, sobre o lixo varrido. Mas os galhos dos cajueiros, alguns secos e retorcidos pelo tempo, me faziam às vezes da irmã que me faltava, por que sorte com homem nunca tive, nem com os irmãos mais moços. Esses nunca me deram ajuda, nem aliviaram a minha vida. E olha que cuidei deles como se meus filhos fossem, dei-lhes banho, comida e contei histórias de assombro, mas não me disseram adeus no dia da partida e nem carta enviaram de sei lá onde estejam. E depois casei. Casei pra ter alguém pra dar banho, comida e contar histórias de assombro que era o que eu podia fazer por alguém. Me disseram que eu tinha que fazer por alguém. Qualquer coisa. Eu sei fazer isso. Podia ser para o marido, podia ser para os filhos. Mas o marido não me permitiu; homem brabo, criado assim pelo passar dos dias, eu entendo. E os filhos trataram logo de crescer e se voar daqui. Também não deram adeus e não escreveram carta de sei lá onde estejam. Às vezes me pergunto se saíram mesmo de mim, mas aí lembro das dores, do suor, do sangue, do sangue meu deus, como perdi sangue, como dei sangue por esses meninos. Mas nunca dei sorte com homem mesmo. 3 meninos e mais o marido numa casa onde só se fala silêncio, onde só se come silêncio e se bebe silêncio. Os cajueiros fazem mais barulho que todos nós juntos e me rio, a barriga apregoada no tanque, a barriga apregoada no fogão, a barriga apregoada no tempo. Ainda me riu, meu deus.
Desperdicei meus melhores anos com ele. Vendi a alma e tudo o que tinha centenas de vezes. Sempre que ele me pedisse e depois sempre que me ordenasse.
Ayla Andrade - poeta e contista cearense
Breve Biografia - Mais publicações do autor
Email -
damadanoite@gmail.com
www -
http://mmedrunkenbutterfly.multiply.com/
editora |
revista |
poemas |
prosas |
cartas |
livros |
filmes |
áudios |
marinheiros |
rotas |
contatos |
::: corsário ::: revista de literatura |
revistacorsario@gmail.com | arte livre: para copiar e distribuir | sítio em desenvolvimento