“Tem toda a liberdade!”, disse Mardônio França quando me convidou para integrar o conselho editorial da Corsário e, mais que isso, tornar-me colaboradora da Revista. Poderia ser melhor? Sim, poderia, e a sugestão que veio em seguida tornou a proposta ainda mais atraente. Para esta primeira edição, Mardônio sugeriu que eu escrevesse sobre o Cidade Poema, projeto que coordeno em Porto Alegre desde 2009 e venho idealizando há vários anos – não me perguntem quantos, que nem eu mesma sei ao certo. Afinal, como disse a Clarice Lispector, o nascimento de uma ideia é precedido por uma longa gestação, num processo inconsciente para o gestante. Sei é que a empolgação de poder escrever com toda a liberdade sobre o Cidade Poema entrou em conflito com o constrangimento de usar este espaço em benefício próprio. A ambivalência resultou em adiamentos sucessivos, não-cumprimento de prazos, pedidos de desculpas sempre aceitos pelos compreensivos editores, a quem agradeço não só pelo convite, mas também pela flexibilidade. Para resolver o impasse, decidi assumir o papel de mãe babona, consciente de que o filhote está crescendo graças aos próprios méritos e a uma grande rede de apoio que se formou ao seu redor. O número de artistas envolvidos já ultrapassa meia centena — mais de 40 deles são poetas; e há ainda fotógrafos, músicos, atores, artistas visuais, profissionais de audiovisual. Isso sem contar com o apoio de empresas e parceiros com os quais o Cidade Poema compartilha seu objetivo de incentivar e democratizar a leitura. Sim, reconheço a importância das boas ideias quando acompanhadas de trabalho e ação, mas o maior motivo de orgulho está mesmo em ter conseguido me cercar de gente cheia de talento e generosidade, sem as quais não há Poesia. A poesia está tomando as ruas de Porto Alegre A invasão é planejada e vem acontecendo aos poucos. Há voluntários de sobra, o arsenal é vasto e de qualidade, mas os avanços ocorrem conforme os recursos. Questes de logística. O melhor é que não há resistência. A cada novo território ocupado, a poesia é recebida com flores e convidada a ficar. São várias as frentes poéticas. Pelo grande porte, se destacam os outdoors e busdoors (apesar do nome, nada a ver com portas, trata-se daqueles adesivos colados no vidro de trás dos ônibus). Também chamam atenção os minimetragens poéticos, já exibidos em cinemas locais e levados a escolas da rede pública. Mas, o Cidade Poema aposta com igual entusiasmo em iniciativas de pequenas dimenses, como bolachas de chope com poemas ilustrados e ímas de geladeira. Entre os dois extremos, há banners, faixas, exposiçes fotográficas, adesivos aplicados em paredes de livrarias, bibliotecas comunitárias, escolas, escritórios, laboratórios e centros de saúde, bem como em elevadores e até espelhos de banheiros de shopping center. Literatura em movimento Os primeiros ônibus com adesivos poéticos nos vidros traseiros circularam pelos bairros de Porto Alegre durante 30 dias, entre abril e maio de 2009, no lançamento do projeto. Foram 15 poemas, sempre acompanhados de fotografias de Fernanda Bigio Davoglio, percorrendo as ruas em 30 veículos. Na mesma época, em 2010, mais 20 busdoors, com arte de Orlando Bona Filho e versos de cinco poetas. Esses adesivos levam algumas pessoas a confundir o Cidade Poema com o Poemas no ônibus, projeto da Prefeitura de Porto Alegre que já vai para sua 20a edição – foi criado na época da administração do prefeito Olívio Dutra (PT). A confusão não é por acaso: além de serem duas iniciativas que utilizam o transporte coletivo para estimular a leitura de poemas, as duas usam adesivos como suporte. No caso do projeto pioneiro , os poemas são selecionados em um concurso anual e os adesivos são colados no interior nos ônibus, podendo ser lidos pelos passageiros durante percurso. Posteriormente, são publicados em livro. Em duas ocasies, estive entre os poetas premiados e senti pessoalmente a grande repercussão da iniciativa, a acolhida de leitores, o que me levou a refletir: por que não colocar adesivos poéticos também para os vidros detrás dos veículos? Por que não levar poemas a outdoors e outras mídias externas, normalmente voltadas para a publicidade? E se isso fosse feito unindo a poesia a ilustraçes e fotografias, subvertendo a ideia de que mídia externa seria sinônimo de poluição visual? Foi a experiência enriquecedora de ter versos selecionados no Poemas no ônibus — posteriormente eu participaria como jurada — que motivou essas reflexes e inspirou o surgimento do Cidade Poema Versos abrem portas e sobem pelas paredes A poesia vai à escola, ao cinema e ao shopping. Ainda frequenta livrarias, mas também se apresenta em praça de alimentação, anda de elevador, se olha no espelho. Os primeiros adesivos poéticos ilustrados por Moojen foram aplicados em três livrarias muito queridas pelos leitores e escritores porto-alegrenses: Letras & Cia, Palavraria e Sapere Aude! Um deles, com poema da série Poesia numa hora dessas?!, de Luis Fernando Verissimo, já faz parte da decoração da Letras & Cia desde a segunda edição da Festa Literária de Porto Alegre (FestiPoa Literária, parceira de primeira hora), em 2009, quando o escritor foi homenageado pelo evento. A Sapere Aude!, exibe um poema de Lau Siqueira e outro meu, enquanto Celso Gutfreind e Fred Maia estão na vitrine e em uma parede interna da Palavraria. Ainda no primeiro ano do projeto, todos os elevadores e banheiros de um shopping da capital gaúcha exibiram adesivos poéticos por um mês. Durante o mesmo período, todas as sesses de três cinemas da rede Cinesystem foram precedidas por apresentaçes de 15 minimetragens com poetas locais dizendo seus versos. A pré-estreia movimentou a Alameda dos Escritores (haveria nome mais apropriado?) do shopping, quando poetas e leitores confraternizaram, além de assistir aos curtas, participaram de performance com a atriz Deborah Finnochiaro, que ofereceu a quem foi aos restaurantes da Alameda o Cardápio Poético, com várias opçes de poemas. Deborah só parou de dizer os poemas quando todos estavam satisfeitos. Os minimetragens voltaram a ser exibidos na Feira do Livro de Porto Alegre e, durante a FestiPoa 2010, no Cine Bancários e no Instituto Cultural Brasileiro Norte-Americano. Foram levados ainda a estudantes e professores de escolas públicas que aderiram ao subprojeto Escola Poema, adesivando paredes e portas.
Laís Chaffe - escritora, poeta e produtora gaúcha
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